
Povo brasileiro: identidade, mito e melancolia
Existe uma estranha melancolia no Brasil. Um país inteiro construído sobre a promessa de futuro, mas que parece passar a vida tentando escapar de si mesmo.
Essa sensação aparece com força desde que cheguei em São Paulo. Escuto alguém explicando a própria origem como quem apresenta um salvo-conduto cultural. "Minha família vem da Itália." "Minha nona fazia isso." "Meu avô era português." Como se existir plenamente brasileiro ainda fosse insuficiente. Como se o Brasil fosse sempre lugar de passagem, nunca de pertencimento, uma sala de espera tropical entre uma Europa sonhada e um futuro que nunca chega.
O brasileiro se narra como alguém vindo de outro lugar, mesmo quando sua família está aqui há gerações. Há quase uma vergonha silenciosa da própria mistura, como se nossa legitimidade dependesse de uma proximidade imaginária com algum centro estrangeiro de civilização.
Não por acaso herdamos o mito do "paraíso das três raças", vendido durante décadas como símbolo de harmonia nacional. Uma ficção confortável que mascarava algo muito menos pacífico: violência colonial, escravidão, apagamento indígena e um projeto contínuo de embranquecimento simbólico. A miscigenação como democracia racial serviu menos para reparar feridas do que para silenciá-las.

Dentro da minha própria família, essa tensão aparece de maneiras estranhas. Cresci ouvindo que "somos portugueses". Meu pai vota nas eleições presidenciais portuguesas pelo consulado; meu avô chegou a ser cônsul em Manaus. Existe um orgulho nisso, quase uma fantasia aristocrática, um pedigree imaginário para uma família de emigrantes de origem humilde, herdado de um Brasil que acreditou por muito tempo na Europa como certificado de sofisticação moral.
Só que eu sou manauara. Sou amazônida, não português. Um papel não define quem eu sou. Minhas cores são daqui. Minha bandeira, antes de qualquer outra, é manauara.
Por isso, minhas primeiras referências vêm do Norte. O que me formou como indivíduo não foi uma linhagem guardada em documento, mas a socialização de crescer no Brasil e, sobretudo, de crescer ali. Foi ali que se formou meu repertório de imagem, de cor e de gosto, antes de qualquer avô europeu entrar na conversa.
Curiosamente, o país também desenvolveu uma obsessão paralela: inventar para si passados místicos grandiosos. Como se não bastasse importar origens europeias, ainda precisássemos de civilizações secretas capazes de transformar o território brasileiro num centro oculto do mundo.

Ratanabá é o exemplo recente mais claro. A cidade perdida amazônica circulou em meio à pandemia como se finalmente tivéssemos encontrado nossa Atlântida. A ausência completa de evidência arqueológica não importava: o fascínio vinha da possibilidade de imaginar o Brasil como berço de uma civilização avançada apagada pela História oficial e, de quebra, como uma cortina de fumaça diante do desgoverno. Antes dela já havia os fenícios da Pedra da Gávea, inscrições vikings improváveis, templos subterrâneos e contatos extraterrestres na floresta. Oscilamos entre dois complexos opostos: o da inferioridade absoluta e o da grandiosidade fantástica.
Essa oscilação ajuda a entender o que Maria Rita Kehl chamou de bovarismo brasileiro, no livro homônimo de 2018. Assim como Emma Bovary sonhava uma vida mais sofisticada porque detestava a banalidade do próprio cotidiano, o país fantasia outras identidades porque encara a própria imagem com desconforto, do Oiapoque ao Chuí. Olhamos para fora em busca de legitimidade estética, intelectual, racial e econômica, enquanto transformamos nossa realidade num incômodo.

Isso atravessa até a nossa produção cultural. Durante décadas, boa parte da elite tentou construir um país visualmente europeu: a arquitetura, os modos de falar, os sobrenomes valorizados, os bairros considerados nobres, os corpos entendidos como elegantes. E, na moda, mentes criativas que pensam roupa através de "estranhas coincidências" com as semanas internacionais.
Talvez a tragédia esteja justamente aí: nunca fomos autorizados a elaborar uma imagem complexa de nós mesmos, porque o Brasil real sempre foi complexo demais para caber nos discursos oficiais. Um país erguido sobre povos indígenas dizimados enquanto monumentos celebravam conquistadores. Um território construído por trabalho escravizado que depois empurrou pessoas negras para uma margem social permanente. Uma nação que vende alegria e normaliza violência.
Aprendemos cedo a mascarar nossas mazelas com uma criatividade digna de fábula. A fabulação virou mecanismo de sobrevivência.
É também nesse ponto que o Brasil mais se aproxima de Joyce e de Homero, algo que aparece de forma belíssima numa reportagem da piauí sobre Donaldo Schüler. Traduções não são apenas traduções: são recriações culturais, releituras contaminadas pelo lugar de onde se fala. Quando Schüler aproxima Joyce de Guimarães Rosa, ou Homero da oralidade gaúcha e nordestina, sugere algo poderoso: nenhuma cultura existe isolada ou pura.
A partir daí, fica mais claro que o problema brasileiro nunca foi mistura demais. É a dificuldade de aceitar a mistura sem hierarquizá-la. Enquanto encenamos uma sofisticação europeia, o mundo passa a se interessar justamente por aquilo que passamos décadas tentando esconder: a Amazônia, suas peculiaridades, suas periferias, tudo aquilo que caracteriza um Brasil com "s", e não aquele com "z".
Porque o Brazil não é o Brasil. Um é a versão apresentável, escrita para funcionar em outra língua; o outro é o que existe de fato, aqui. E os dois, presos à mesma lógica de vira-lata, dão as costas para a mesma região. O Norte entra na conversa como cenário e quase nunca como centro: pauta ambiental quando convém, exotismo quando rende, matéria-prima quando dá lucro. Raramente como origem de pensamento, de estética, de imagem.
É por isso que a nona italiana e o avô português não são apenas um detalhe simpático de conversa. Esse discurso mantém o olhar apontado para fora e, ao fazer isso, mantém o Norte fora de foco.
O impasse talvez esteja menos em não saber quem somos do que em insistir em procurar nossas origens em outro lugar. Enquanto a linhagem europeia ocupa a frente da narrativa, a história que aconteceu aqui permanece em segundo plano. E a que aconteceu no Norte sequer chega a ser contada.
Diante disso, talvez o gesto mais radical que nos reste seja também o mais simples: parar de traduzir o Brasil para outra língua. Deixar de pedir licença para existir e começar a olhar, sem constrangimento, para o que já está aqui, não como exotismo de exportação nem como mito compensatório, mas como matéria-prima.
Eu não venho de Portugal. Venho de Manaus. E é daí que vem tudo aquilo que eu sei fazer.
