
A Fé no Lugar em que Estamos
Escutei recentemente uma música que repercutiu em minha mente por mais tempo do que imaginei. A canção era “Change”, de Lana Del Rey, pertencente ao álbum Lust for Life.
Ela tocou em um incômodo meu que, de certa forma, pode ser entendido como um fragmento do nosso tema principal, “O Lugar”. Ao ouvi-la, pensei no mesmo cansaço de continuar se importando sobre o qual canta a artista norte-americana: a tentação de achar que cuidar do mundo é responsabilidade de outra pessoa, sobretudo quando parece que ninguém se importa.
Ao mesmo tempo, ouço nela uma tentativa de encontrar força para continuar acreditando na mudança. É justamente nessa contradição que me reconheço: quero que alguma coisa melhore, mas já não sei de onde tirar disposição para participar disso.
É essa tensão entre o desejo de mudança e o cansaço de continuar tentando que também orienta a maneira como leio. Algumas imagens permanecem comigo até revelarem uma ligação com esse mesmo incômodo. Foi o que aconteceu com os prints de páginas da revista Piauí que estavam em minha galeria: ao reescutar a canção, percebi que eles ajudavam a nomear a dificuldade de acreditar no futuro e a tentação de buscar respostas fora da realidade que habitamos.
Uma das matérias salvas falava sobre a perda da confiança no futuro. Nela, estava escrito: “Melhoramos, mas agora nos falta a confiança no futuro”. A outra tratava de Ratanabá, uma suposta cidade perdida na Amazônia que já discutimos em textos publicados por aqui, e das narrativas sem comprovação construídas ao seu redor. Um trecho registrado na imagem dizia que “muitas vezes as mirabolâncias são mais atraentes do que a aspereza da realidade”.
Misturadas à voz melancólica de Lana Del Rey, essas frases revelaram os dois movimentos que atravessam este texto. De um lado, o desânimo de viver neste mundo e ainda precisar acreditar que algo pode melhorar. De outro, a tentação de transferir essa esperança para uma narrativa grandiosa, distante e aparentemente mais confortável, ainda que irreal. Em ambos, está em jogo a mesma questão: o que acontece com o lugar em que vivemos quando deixamos de imaginar um futuro para ele?
Ao me fazer essa pergunta, voltei à minha própria formação religiosa. Se já não conseguimos imaginar um futuro bom aqui, onde depositamos essa esperança? Pensei nas religiões, no “paraíso”, nas colônias espirituais e em Nosso Lar, sobretudo nesta última, que estaria situada acima do Rio de Janeiro, uma das cidades-temas da coleção O Lugar.
Cresci como espírita, ouvindo histórias sobre a vida depois da morte, sobre as colônias espirituais e sobre os exilados de Capela: espíritos que, segundo essa narrativa, teriam vindo de um planeta distante, em processo de transformação, para reencarnar na Terra e contribuir para o desenvolvimento da humanidade, para só então voltar ao seu planeta natal.
Eu ouvia essas histórias como quem aprende a imaginar a continuidade da vida. A morte não seria um adeus, mas um capítulo de uma narrativa sem fim. Entendo a força desse consolo; o problema começa quando ele transforma esta vida apenas em passagem.
É nesse ponto que a esperança pode se converter em resignação: quando passamos a acreditar que precisamos sofrer ou nos privar aqui para merecer a felicidade depois, como se estar neste mundo fosse apenas cumprir uma obrigação e viver bem fosse um direito reservado ao divino.
Essa desvalorização do presente explica por que associei a promessa de outro lugar às fantasias de uma origem extraordinária. Em ambos os casos, algo exterior é convocado para dar sentido ou grandeza ao que existe aqui. Em Ratanabá, essa operação pode assumir um tom racista: em vez de reconhecer a inteligência, a organização e a capacidade técnica dos povos indígenas, inventa-se uma civilização perdida, supostamente mais avançada, que teria deixado suas marcas na Amazônia. Como se os povos originários não pudessem ser autores da própria história…
Embora pertença a outro campo, a narrativa dos exilados de Capela repete uma estrutura semelhante: também oferece à humanidade uma origem exterior e extraordinária, uma espécie de mito de migração cósmica. Não quero reduzir a experiência espiritual de quem acredita nela, nem negar sua força simbólica. Ainda assim, me pergunto o que acontece quando essa narrativa organiza a ideia de que alguns espíritos seriam mais antigos, mais evoluídos ou mais responsáveis pelo desenvolvimento humano do que outros.
Há aí o risco de reproduzir, em escala espiritual, uma hierarquia que lembra as classificações raciais e civilizatórias usadas pelo colonialismo: alguns chegam como portadores do progresso; outros aparecem apenas como atrasados, necessitados de tutela ou salvação. É isso que o livro contém: a ideia de que há raças melhores do que outras, disfarçada por um viés religioso e pseudocientífico.
É nessa estrutura compartilhada que as duas fantasias se encontram. Ao recorrer a uma origem exterior para explicar nossa grandeza, ambas tornam insuficiente a história concreta. Em vez de olhar para os povos indígenas e suas formas de organização, procuramos uma cidade perdida; em vez de assumir a responsabilidade coletiva pelo futuro, imaginamos uma humanidade conduzida por espíritos vindos de outro mundo. A mirabolância se torna mais confortável do que a realidade porque nos poupa de reconhecer quem esteve aqui, quem foi apagado e quem ainda precisa ser ouvido.
Essa fuga para uma origem extraordinária também se relaciona à dificuldade de imaginar o futuro. Quando o presente parece sem saída, buscamos explicações no passado mítico ou na promessa de uma vida posterior, pois é mais fácil conceber fantasias do que o fim do sistema que nos oprime.
Essa recusa em encarar o presente não é apenas abstrata. Ela se torna ainda mais inquietante nos tempos sombrios que pairam sobre o Brasil neste momento de pré-eleição. Há um medo constante de ataques, invasões, violência política e de que a nossa democracia seja novamente ameaçada. Nesse cenário, até a promessa espiritual parece ser retirada de nós quando cultos marianos são atacados e a imagem da padroeira do Brasil é transformada em alvo.
Não acho que toda fé leve à resignação. Ela pode oferecer linguagem, comunidade e força para mudar o que precisa ser mudado. Minha inquietação começa quando o consolo nos ensina a permanecer na dor, como se todo sofrimento trouxesse uma lição ou devesse ser aceito com gratidão.
Esse percurso devolve o texto à pergunta que o iniciou: o que deixamos de enxergar neste mundo quando depositamos tanto desejo em outro? Seja na cidade perdida, na colônia espiritual ou no paraíso, a promessa de um lugar melhor pode nos fazer abandonar a responsabilidade pelo espaço em que estamos. Portanto, a questão não é simplesmente acreditar ou não, mas perceber se uma crença amplia nossa presença no mundo ou nos afasta dele.
É a partir desse critério que quero fazer um movimento diferente com essas imagens. Em vez de abandonar a ideia de uma origem comum, quero imaginá-la sem hierarquias e sem apagamentos: um povo formado não por espíritos superiores, civilizações ocultas ou escolhidos vindos de longe, mas por pessoas diferentes que decidem compartilhar o mesmo chão. Um povo que não se reúne apenas para esperar tranquilidade no pós-vida, mas para construí-la na Terra.
Queria que fôssemos um povo com fé no amanhã, não uma fé passiva, que espera o futuro acontecer ou suporta o presente em silêncio. Acreditar também é construir uma ponte até o que imaginamos, com nossas escolhas e nossa capacidade de cuidar uns dos outros. Assim, a fé não nos afasta da realidade: ela nos dá coragem para atravessá-la.
É nesse espaço compartilhado que deposito minha esperança nas eleições e no futuro da nossa nação. Não em uma salvação vinda de fora ou em uma elite dona do destino coletivo, mas na possibilidade de nos reconhecermos como um povo capaz de construir unidade sem apagar diferenças. Um povo que não precise inventar uma civilização perdida para reconhecer a grandeza da Amazônia, nem esperar por uma colônia espiritual para admitir que todos merecem cuidado agora.
É aqui que essas ideias retornam ao nosso tema-guarda-chuva, O Lugar. Elas talvez não virem roupa, mas dão forma ao incômodo que atravessa a coleção: passar a vida esperando por um lugar melhor e, nessa espera, deixar de reivindicar o nosso espaço no mundo. A esperança que procuro não é a promessa de escapar da Terra, mas a decisão de permanecermos nela juntos. Mesmo quando o medo paira sobre o país, a democracia parece frágil e até os símbolos de fé são atacados, precisamos insistir na construção de uma comunidade que não dependa de uma promessa distante para ser digna de existir.
Essa permanência responsável permite recuperar a lição de Cristo como um chamado à ação. Amar o próximo não é apenas desejar que ele seja salvo algum dia; é construir com ele um mundo melhor, estender-lhe a mão e semear o bem no presente. Não queremos colher o joio da violência, da intolerância e da desigualdade, mas o trigo de uma vida compartilhada com dignidade.
É essa prática de presença que me faz lembrar “Magnólia”, de Rosalía, canção que encerra o álbum Lux. Sua imagem sugere uma despedida da festa, do brilho e da celebração. Não precisamos de festa sobre nossos ataúdes, porque, no fim, não haverá festa nem magnólias. Não haverá beleza suficiente para encobrir o que destruímos.
O que permanecerá não será a aparência da celebração, mas aquilo que fizemos uns pelos outros enquanto ainda havia tempo.