
Adeus, Minha Rainha
O ano era 1917, e elas talvez ainda não soubessem que aquele seria o último inverno juntas em Tsárskoie Seló. A revolução já condenava a última família imperial russa, e o país inteiro, a uma perda particular: deixar de possuir a própria história. Nenhum Romanov governava mais o vasto império. A autocracia havia sido renunciada, e uma das famílias reais mais ricas do mundo via seu universo reduzido ao perímetro da prisão dourada em que se convertera sua última residência.
No interior do Palácio Alexandre, a antiga imperatriz Alexandra Feodorovna, mulher do czar Nicolau II, e Anna Vyrubova, sua antiga dama de companhia e talvez sua única amiga, queimavam cartas. Haviam passado mais de dez anos escrevendo uma à outra e agora temiam que aquelas correspondências caíssem em mãos indignas, fossem lidas por pessoas que desconheciam suas vidas e servissem para comprovar crimes que talvez nunca tivessem existido. Assim, parte da vida privada da última czarina virou cinzas na mesma lareira que aquecera as duas durante tantos invernos, no interior do Quarto Malva de Alexandra.
Aquele fogo devolvia ao quarto uma aparência de continuidade. Alexandra havia escolhido o ambiente ainda jovem, recém-chegada a um país que jamais pareceu compreendê-la. Conta-se que entregou ao arquiteto Roman Meltzer um ramo de lilás, sua flor preferida, e pediu que a decoração partisse daquela tonalidade. Vieram as paredes de seda malva, o friso de íris, os móveis claros e, nos longos invernos russos, flores cultivadas nas estufas imperiais para que houvesse lilases dentro de casa enquanto quase nada florescia lá fora.
Durante cerca de vinte anos, Alexandra quase não alterou aquele cômodo. Ao redor dele, porém, tudo mudava: o século, a guerra e a própria ideia de autocracia imperial. O Quarto Malva permaneceu quase intacto, como se ela tivesse encontrado ali uma maneira de suspender o tempo.

Créditos: Imperatriz Alexandra Feodorovna em seu boudoir malva.
Não era um salão de aparato. Era onde Alexandra lia, escrevia, bordava, recebia os filhos e tomava chá. Crianças atravessavam o ambiente, cachorros subiam nos móveis, e muitos dos retratos mais íntimos dos Romanov foram feitos ali. A imperatriz de Todas as Rússias construíra para si um lugar onde o mundo cabia na escala doméstica.
Vista hoje, a escolha do malva parece quase involuntária. Alexandra provavelmente não pretendia transformar suas paredes numa autobiografia, mas escolheu para seu espaço mais íntimo uma cor pertencente à gramática do luto em que fora criada. Na etiqueta vitoriana, o malva era uma tonalidade do meio-luto: surgia quando o preto absoluto podia enfim ser abandonado, embora ainda fosse cedo para retornar plenamente às cores. Era uma cor de passagem, situada entre a perda e a continuação da vida.

Créditos: Imperatriz Alexandra Feodorovna da Rússia em seu célebre boudoir malva, decorado em sua cor favorita e com móveis de uma loja londrina.
Alexandra conhecia essa linguagem desde a infância. Era neta da rainha Vitória, cuja imagem pública se tornara inseparável do luto depois da morte do príncipe Albert. Perdeu a mãe, a princesa Alice, aos seis anos, passou longos períodos sob os cuidados da avó e cresceu numa família em que a morte não era apenas experiência privada, mas possuía cores, tecidos, durações e rituais precisos.
A vida adulta tampouco a afastaria da perda. Alexandra chegou à Rússia durante a agonia de Alexandre III e se casou com Nicolau pouco depois da morte do czar. Anos depois, quando finalmente deu à luz o herdeiro esperado pela dinastia, descobriu que Alexei tinha hemofilia, a mesma doença que atravessara os descendentes da rainha Vitória.
A partir daí, o luto deixou de ser lembrança e passou a existir como possibilidade. Uma queda ou uma hemorragia interna podiam matar o czarévitche. A hemofilia de Alexei ajuda a compreender a religiosidade crescente de Alexandra, seu isolamento e a entrada de Grigori Rasputin na intimidade da família. Assim, ela passou duas décadas refugiada num quarto da cor do meio-luto, esperando que o luto não se completasse.
Era nesse espaço que Anna Vyrubova entrava quase todos os dias. Nascida numa família da velha nobreza ligada aos Romanov, servira como dama de honra da imperatriz, mas perdera a função ao se casar, em 1907. O casamento durou pouco. Anna passou então a viver numa casa simples no perímetro da propriedade imperial, sem qualquer posição que justificasse a intimidade que continuava a ter com Alexandra.
Era essa liberdade que a corte parecia incapaz de perdoar. A etiqueta determinava quem caminhava primeiro, quem se sentava mais perto, quem entrava e quem esperava. Anna atravessava a porta dos aposentos privados não porque o protocolo lhe concedesse esse direito, mas porque Alexandra queria sua presença. Em suas memórias, Vyrubova registrou o rancor que essa proximidade provocava entre as outras damas. Da mesma época sobrevive uma pergunta atribuída à própria czarina: “Não é possível que a imperatriz da Rússia tenha uma amiga?”
As duas compartilhavam a devoção pela Igreja Ortodoxa, a música e uma quantidade de dores que as moldou. Naquele último inverno, compartilharam também a doença. O sarampo atingiu os filhos dos Romanov, e Alexandra passou a cuidar deles tendo Anna como assistente até que a própria amiga adoeceu e se tornou mais uma paciente dentro do palácio.
“A imperatriz era um anjo”, lembraria Anna. Ia de um quarto a outro cuidando dos doentes e velando por eles enquanto a angústia daqueles dias devia dilacerar cruelmente seu próprio coração. Anna ainda estava de cama quando a monarquia foi deposta e, poucos dias depois, outras pessoas começaram a atravessar as portas que haviam protegido durante tantos anos a intimidade da família imperial.

Créditos: Anna Vyrubova na residência imperial ao lado da filha mais velha da Imperatriz, Tatiana Romanov
Aleksandr Kerenski, um dos rostos do Governo Provisório, passou a frequentar aqueles aposentos em nome do novo regime e foi ele quem separou as duas. Aterrorizada, Anna queimava suas próprias cartas quando Kerenski ordenou que fosse levada à Fortaleza de Pedro e Paulo sob acusação de traição. Nunca se encontrou contra ela prova proporcional às conspirações que lhe eram atribuídas. Anna Vyrubova nunca mais voltou a ver Alexandra.
A última cena das duas juntas permaneceu ligada ao lugar em que a amizade havia se desenvolvido. A seda malva, a lareira, os lilases cultivados no inverno e a porta que Anna podia atravessar pertencem à história das duas tanto quanto as cartas. O fogo que as aquecera transformou em cinzas parte daquilo que poderia contar quem haviam sido uma para a outra.
A história, porém, não terminava no Quarto Malva. Mais de um século antes, outra rainha estrangeira havia buscado solução parecida para o problema de pertencer inteiramente ao mundo. Maria Antonieta recebeu de Luís XVI o Petit Trianon, nos jardins de Versalhes, e fez daquele pequeno palácio seu domínio particular. Para uma mulher submetida ao cerimonial até em gestos íntimos, controlar quem atravessava uma porta significava possuir uma das poucas formas possíveis de privacidade.

Créditos: Eugène Atget, Pavilhão Francês do Petit Trianon, 1923–1924.
E Maria Antonieta também tinha uma Anna. Chamava-se Yolande de Polastron, duquesa de Polignac.
Polignac tornou-se uma das amigas mais íntimas da rainha e pertencia ao pequeno círculo com o qual Maria Antonieta podia abandonar parte da etiqueta de Versalhes. Sua proximidade provocava ressentimentos na corte, e a intimidade com a soberana alimentou os libelos contra o Trianon. Quando a Revolução começou, em 1789, sua imagem chegou a ser queimada em Paris, e ela recebeu a ordem de deixar a França.
A despedida das duas sobreviveu numa carta. Maria Antonieta chamou Polignac de sua mais terna amiga e escreveu que a palavra “adeus” lhe parecia terrível. A duquesa partiu para o exílio, e as duas continuaram se correspondendo, mas nunca mais voltaram a viver juntas naquele lugar. Polignac morreria em Viena em dezembro de 1793, cinquenta dias depois de Maria Antonieta morrer na guilhotina.
A repetição tem algo de fantasmagórico. Primeiro, uma arquiduquesa austríaca em Versalhes e sua amiga; mais de cem anos depois, uma princesa alemã em Tsárskoie Seló e a dela. Duas rainhas estrangeiras e impopulares, duas amizades abrigadas em espaços privados e duas separações provocadas pelas revoluções que destruiriam seus mundos. Maria Antonieta tinha o Trianon e Polignac; Alexandra, o Quarto Malva e Anna.
Nenhum dos dois lugares conseguiu permanecer privado. A corte francesa ressentia-se do Trianon porque a rainha decidia quem entrava nele. O pequeno palácio tornou-se gigantesco no imaginário dos que ficavam de fora e, nos libelos contra Maria Antonieta, foi preenchido por extravagâncias, amantes, conspirações e uma vida secreta cuja dimensão aumentava justamente porque quase ninguém podia testemunhá-la.
O Quarto Malva teria destino semelhante. Do lado de fora estavam aqueles que não compreendiam a intimidade entre Alexandra e Anna, a devoção religiosa das duas ou a confiança depositada em Rasputin. Do lado de dentro, uma imperatriz cada vez mais isolada escrevia cartas e tentava manter o filho vivo. A impossibilidade de ver o que acontecia naquele espaço permitia imaginar quase qualquer coisa sobre ele.
O fantasma que atravessa o Trianon e o Quarto Malva não pertence apenas às duas rainhas, mas também às mulheres autorizadas a entrar. Dentro de vidas inteiramente públicas, o lugar privado provocava suspeita; a amizade, por não obedecer às hierarquias da corte, também. Quanto menos se conhecia o interior, mais facilmente ele podia ser preenchido por rumores, acusações e fantasias.
Até os destinos das duas parecem produzir uma rima histórica. Maria Antonieta deixou o Trianon em 1789 e nunca mais voltou; Alexandra deixou o Palácio Alexandre como prisioneira e também jamais retornou. Uma morreria na guilhotina; a outra, num porão em Ecaterimburgo. Elas partiram; os quartos ficaram.
Essa permanência, no entanto, não preservou os lugares da História. O Petit Trianon sobreviveu a Maria Antonieta, mas deixou de ser apenas o retiro que ela conhecera. O Quarto Malva teve destino ainda mais estranho: pouco depois da morte de Alexandra, seu espaço mais íntimo passou ao mundo exterior.
Em 1918, o Palácio Alexandre foi transformado em museu e os aposentos particulares dos Romanov foram abertos ao público. A intenção era expor a decadência da antiga família imperial, mas os visitantes encontravam móveis usados, brinquedos, fotografias, ícones e vestígios banais de uma família que havia vivido ali. Por trás da dinastia existira uma casa.
A Segunda Guerra Mundial destruiria grande parte daqueles interiores. O Quarto Malva atual precisou ser reconstruído a partir de fotografias, documentos e fragmentos. A seda voltou às paredes, os móveis foram reposicionados e desconhecidos puderam atravessar um espaço que Alexandra preservara durante quase vinte anos. Tudo parecia devolvido ao lugar, menos a vida que lhe dava sentido.
Há uma crueldade particular nessa sobrevivência. O Petit Trianon continua de pé depois de Maria Antonieta; o Quarto Malva voltou a existir depois de Alexandra. Já não são exatamente aquilo que foram, mas tampouco conseguem deixar de sê-lo.
Para ela, não haveria retorno possível àquele Quarto Malva. Mesmo que reencontrasse a seda nas paredes, os móveis claros e a lareira diante da qual queimara cartas com Alexandra, encontraria apenas a reconstrução de um lugar cuja intimidade dependia da presença das duas. O quarto permanecia no mapa; o caminho de volta ao que haviam vivido nele, não.
Anna Vyrubova conheceu essa forma de exílio. Sobreviveu à revolução, foi presa, interrogada e humilhada, e conseguiu deixar a Rússia. Viveu até a década de 1960, sobrevivendo a Nicolau, Alexandra, aos filhos deles, a Rasputin, à velha aristocracia e ao império inteiro.
Nunca conseguiu se despedir da mulher de quem fora amiga durante mais de dez anos. Durante o cativeiro, Alexandra lhe escreveu que voltariam a se encontrar além da carne.