
A margem como imagem: pobreza e estética nas redes
Há algumas semanas, deparei-me com um perfil no Instagram gerado inteiramente por inteligência artificial que, em ritmo frenético, reunia milhares de seguidores.
As publicações exibiam homens em ambientes associados ao trabalho braçal e à vida popular: oficinas mecânicas, boleias de caminhão, postos de combustíveis e botecos de periferia. A composição dessas imagens não deixava dúvidas sobre seu teor homoerótico e retomava uma estética já conhecida em desenhos fetichistas, como os de Tom of Finland.

Créditos: Tom of Finland.
No entanto, o que de fato despertou meu interesse não foi a hipersexualização evidente daqueles corpos. Isso, por si só, já faz parte da lógica das redes sociais, há muito transformadas em vitrines permanentes de desejo e estímulo visual. O que me intrigou foi a repetição quase obsessiva de certos marcadores de classe: o cigarro no canto da boca, o copo de cerveja barata, a lataria dos caminhões, o chão coberto de graxa e os sinais de uma vida marcada pelo trabalho.
Esses elementos não funcionavam apenas como cenário. Eram parte fundamental do apelo erótico das imagens. Para que aqueles avatares funcionassem como objetos de atração, não bastava que fossem belos ou sexualizados. Era preciso que estivessem ligados a uma posição social muito específica, imediatamente reconhecível como masculina e principalmente trabalhadora.
O desejo dependia justamente dessa marcação. Aqueles corpos pareciam excitantes porque carregavam, de forma higienizada e sem conflito, os signos de uma existência socialmente inferiorizada.
A princípio, pensei tratar-se apenas de mais uma excentricidade algorítmica. Aos poucos, porém, percebi que havia ali algo mais profundo. Aquelas figuras não pareciam nascer da observação de caminhoneiros ou mecânicos reais, mas da combinação de imagens que já circulavam há muito tempo no imaginário coletivo.
A inteligência artificial apenas reunia, reorganizava e intensificava um repertório visual que a cultura de massa já vinha construindo há décadas.
No fim, não havia nada de verdadeiramente novo naquelas imagens. O algoritmo apenas tornava mais visível um conjunto de clichês já sedimentados. Os trabalhadores que apareciam na tela pareciam menos inspirados em pessoas concretas do que em versões idealizadas dessas pessoas, produzidas e reproduzidas ao longo de anos por diferentes formas de representação.
É justamente nesse ponto que a noção de simulacro, formulada por Jean Baudrillard, ajuda a compreender o fenômeno. O simulacro é uma imagem que já não depende diretamente do real: ela passa a circular por conta própria e, muitas vezes, substitui aquilo que deveria representar. Assim, os caminhoneiros hiper-realistas gerados por códigos digitais não documentam trabalhadores reais. Eles documentam uma fantasia sobre esses trabalhadores, especialmente a fantasia de uma classe dominante.
Essa fantasia se torna ainda mais poderosa quando se liga ao fetiche. O desejo, afinal, não nasce apenas da aparência. Ele também depende das histórias que contamos sobre o outro. Em um ambiente digital dominado pela padronização, aqueles personagens pareciam oferecer algo raro: uma sensação de autenticidade. A ironia, porém, era essa suposta autenticidade era inteiramente fabricada por I.A.
A partir daí, a questão deixa de ser apenas estética. O que está em jogo é a forma como a sociedade transforma desigualdade em imagem, diferença social em estilo e escassez em objeto de desejo. Nesse processo, a pobreza parece conquistar espaço apenas quando pode oferecer algum tipo de prazer simbólico, erótico ou cultural a quem a observa.
Embora essas imagens tenham surgido em um perfil específico das redes sociais, o mecanismo que elas revelam está longe de ser restrito ao universo digital. Na verdade, ele ajuda a iluminar uma lógica muito mais ampla, particularmente visível em sociedades marcadas por desigualdades profundas, como a brasileira.
A pobreza brasileira é amplamente representada no imaginário coletivo. Ela aparece nos meios de comunicação, na política, na cultura e, cada vez mais, nas plataformas digitais. A questão central não está na quantidade de imagens disponíveis, mas nos processos que as produzem e nos significados que lhes são atribuídos. Pois, da forma como está, ela deixa de ser compreendida como uma experiência histórica e passa a existir como fantasia disponível.
É assim que a favela se transforma em cenário para safaris, o operário em símbolo abstrato e determinadas expressões culturais em produtos dissociados dos territórios que as produziram. Assim, a experiência social deixa de ser compreendida em sua complexidade e passa a funcionar como repertório de imagens prontas, fáceis de apropriar, consumir e descartar.

Créditos: Turismo em favela carioca; 2017.
Nesse deslocamento, há uma operação de fetichização. O mesmo grupo social que antes condenava o corpo periférico agora consome seus códigos como sinal de modernidade e vanguarda. O fascínio não recai sobre a realidade concreta da pobreza, mas sobre uma versão estetizada dela: o corpo marcado pelo trabalho, a fala considerada bruta, a sexualidade percebida como menos domesticada, a rua imaginada como espaço de liberdade primitiva.
A precariedade, quando separada de suas consequências materiais, passa a parecer espontânea, viril e desejável. Consome-se a estética da margem sem enfrentar a desigualdade que a produz.
É justamente aí que o erotismo se torna politicamente revelador. O desejo por essas representações não é neutro: ele organiza distâncias. Permite que grupos privilegiados se aproximem simbolicamente daquilo que mantêm afastado na vida cotidiana. A margem aparece como fantasia de excesso, força e autenticidade, enquanto os sujeitos reais que habitam esse espaço continuam submetidos à vigilância, ao estigma e à exclusão.
O corpo periférico é desejado como imagem, mas raramente reconhecido como sujeito. Sua humanidade é suspensa para que ele possa funcionar como superfície de projeção: ora romantizado como mais verdadeiro, ora reduzido a um corpo bruto disponível ao consumo.
E, quando olhamos para a moda, podemos perceber também a existência disso.
Há alguns dos exemplos que pode ser citado foi a John Galliano para a Dior nos anos 2000: uma coleção de alta-costura inspirada na população em situação de rua que vivia às margens do Sena.
Embora Galliano tenha descrito a coleção como uma homenagem à engenhosidade e à dignidade dessas pessoas, organizações e críticos apontaram a transformação da miséria em espetáculo de luxo. O episódio ficou conhecido como homeless chic e se tornou um exemplo emblemático das tensões entre inspiração, apropriação e fascínio pela pobreza.

Créditos: Dior Alta-Costura de 2000, batizada de “Homeless Chic”.
Embora seja um caso frequentemente lembrado no contexto europeu, dinâmicas semelhantes também aparecem em outros lugares. No Brasil, por exemplo, não foram raras as ocasiões em que elementos associados às periferias urbanas passaram a circular no mercado de moda de alto padrão, como camisetas estampas com a palavra “favela”, destinados a um público com tíquete médio mais elevado.
Evidentemente, não há problema em reconhecer a relevância cultural desses espaços. A questão surge quando a referência passa a circular desvinculada das experiências concretas que a produziram.
Em certo sentido, trata-se de um mecanismo próximo daquilo que a psicanálise chamou de retorno do reprimido. Aquilo que uma sociedade mantém à distância em sua vida cotidiana frequentemente retorna sob a forma de fantasia, fascínio ou representação estética. O que é rejeitado como problema social reaparece como imagem desejável. Não é preciso enfrentar a desigualdade para consumir seus signos. Não é preciso conviver com a margem para desejar aquilo que ela simboliza. Dessa forma, a pobreza deixa de existir como realidade política e passa a funcionar como repertório visual, linguagem estética ou promessa de autenticidade.
Seria fácil encerrar a discussão condenando apenas os excessos da moda, contudo essa reflexão também nasce dentro do sistema de moda, através do blog de uma marca. Reconhecer esse risco não significa abandonar toda representação. Nenhuma coleção, campanha ou narrativa é neutra: toda imagem escolhe o que mostrar, o que cortar e o que simplificar. A questão, portanto, não é buscar uma pureza impossível, mas assumir responsabilidade de quem produz e de quem consome.
É aqui que a inteligência artificial volta ao centro do argumento. Ela não inventa o fetiche pela pobreza; apenas o torna mais visível. Ao criar trabalhadores braçais sem história ou conflito, automatiza uma operação antiga: remove o sujeito, preserva o signo e entrega uma pobreza pronta para circular sem incômodo.
No Brasil, onde as fronteiras sociais são rígidas, essa lógica se agrava. Quando classes diferentes quase não convivem, a imagem ocupa o lugar da experiência. Reconhecemos clichês mas não as pessoas e histórias concretas.
Existe, portanto, uma diferença decisiva entre conhecer uma vida e reconhecer um clichê. Se a pobreza só circula plenamente quando romantizada, higienizada ou erotizada para o consumo de grupos privilegiados, talvez estejamos diante de uma sociedade que aprendeu a desejar aquilo que continua produzindo, explorando e mantendo à distância.
Essa distância também organiza a vida material. A sociedade que romantiza o trabalhador como símbolo de força impõe a muitas jornadas exaustivas, baixos salários e pouco tempo para existir fora do trabalho. A desigualdade, assim, não é apenas tolerada: é administrada como parte do sistema.
Por isso, o fascínio pela pobreza revela uma contradição: condena-se a desigualdade em discurso, mas preservam-se as estruturas que a produzem. A margem é celebrada como imagem enquanto segue conveniente como realidade distante.
O ponto mais perturbador é que o poder não apenas administra desigualdades; às vezes parece extrair prazer de mantê-las. Há fetiches que não se limitam à fantasia: atravessam instituições, leis, jornadas de trabalho e formas de acesso ao descanso, ao prazer e à própria existência.
A imagem digital da pobreza revela, portanto, a contradição central deste percurso: a margem parece estar em todos os lugares (no feed, na moda, na publicidade, no desejo) justamente porque sua existência concreta continua sendo limitada. Ela circula como estética, fantasia e promessa de autenticidade, mas permanece distante como sujeito, história e vida material.
A inteligência artificial apenas torna essa operação mais evidente: ao fabricar corpos pobres sem conflito, sem tempo e sem voz, mostra como a sociedade já vinha transformando desigualdade em imagem consumível.
O problema, então, não é apenas representar a pobreza, mas desejar sua forma higienizada enquanto se preservam as condições que a produzem. Concluir isso exige reconhecer que há uma diferença decisiva entre dar visibilidade e conceder existência. Quando a pobreza só encontra lugar ao ser romantizada, erotizada ou convertida em estilo para grupos privilegiados, a imagem deixa de revelar o mundo e passa a encobrir a violência que o sustenta.