
Mulheres e Quimeras, parte 2: sereias e resistência
Existe uma estranha contradição no nosso tempo: nunca se falou tanto sobre as mulheres e, ainda assim, cresce a sensação de que seu lugar no mundo se torna cada vez mais frágil.
A historiadora Yannick Ripa observa que a história das mulheres raramente avança em linha reta. Direitos conquistados ao longo de décadas podem ser questionados, restringidos ou até mesmo retirados. O que parece consolidado hoje pode voltar a ser disputado amanhã.
Em diferentes partes do mundo, esse movimento se torna cada vez mais visível. No Afeganistão, mulheres foram progressivamente apagadas da vida pública. Em democracias ocidentais, direitos reprodutivos voltam a ser questionados. No Brasil, o debate reaparece de maneiras igualmente preocupantes. Recentemente, o Senado aprovou a derrubada de diretrizes que organizavam o acesso de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual ao aborto legal, tornando esse acesso mais difícil e burocrático.
Nenhuma dessas transformações acontece de uma só vez. Ela costuma ocorrer por paulatinamente.
Primeiro, um direito é colocado em dúvida. Depois, uma denúncia perde credibilidade. Em seguida, uma mulher é levada a acreditar que está exagerando. Outra passa anos tentando provar uma violência que não deixou marcas visíveis. Aos poucos, aquilo que parecia exceção deixa de parecer extraordinário e seus direitos e segurança na sociedade passa a serem cassados.
Talvez seja justamente por isso que sereias, bruxas e quimeras continuem ocupando um lugar tão persistente no imaginário ocidental, mesmo que essa afirmação possa parecer deslocada ¾ ou fantasiosa ¾ meio a temeridades aqui citadas.
Durante muito tempo, essas figuras foram apresentadas como ameaças. Hoje, porém, parece mais interessante enxergá-las de outra forma. Não como monstros, mas como mulheres que se recusaram a permanecer no lugar que lhes foi atribuído. A sereia abandona as águas. A bruxa acumula conhecimento. A quimera rejeita uma forma única. Em comum, todas atravessam limites do ambiente que estão inseridas.
Logo, o “Monstruoso” não está nelas e sim na reação que provocam. E assim, essa lógica continua presente e fundamental para a progressão do texto, pois sempre que uma mulher ultrapassa o espaço que lhe foi reservado, sua presença passa a ser questionada. O debate deixa de ser sobre aquilo que ela diz ou faz e passa a ser sobre o seu direito de estar ali.
É justamente nesse ponto que a disputa pelo lugar da mulher encontra, de modo ainda mais evidente, a disputa pelo corpo feminino.
A discussão em torno da Ilha de Marajó expôs essa engrenagem de forma dolorosa. Embora o tema tenha sido atravessado por disputas políticas e desinformação, a exploração sexual de crianças e adolescentes na região não deixou de existir por causa disso. Ao contrário, o caso revelou algo que ultrapassa Marajó: meninas aprendem cedo demais que seus corpos podem ser observados, comentados, avaliados e, muitas vezes, tomados como território público. Como sereias arrastadas para fora da água, são lançadas antes da hora a um mundo que as olha antes mesmo de reconhecê-las como sujeitos.
O problema, portanto, não está apenas na violência explícita, mas na naturalidade com que ela é absorvida. A infância feminina é interrompida, o corpo feminino torna-se assunto público e aquilo que deveria provocar indignação permanente acaba sendo tratado como parte inevitável da realidade. Assim, a fronteira que deveria proteger essas meninas se dissolve, e o perigo deixa de parecer exceção para se infiltrar no cotidiano.
Essa lógica, contudo, não desaparece quando a vida adulta começa; tampouco se encerra quando a vida termina.
Recentemente, a morte de Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, arremessada sem cordas ao praticar bungee jump, revelou uma face particularmente cruel desse fenômeno. Enquanto familiares e amigos tentavam lidar com a perda e aguardavam respostas sobre as circunstâncias da tragédia, comentários sobre seu corpo, sua aparência e sua sexualidade passaram a circular pelas redes sociais. A jovem havia morrido; ainda assim, continuava sendo observada, julgada e consumida. Como uma quimera reduzida às partes que a compõem, sua imagem foi fragmentada por olhares que recusavam enxergá-la em sua inteireza.
Como se nem mesmo a morte fosse capaz de devolver às mulheres o direito sobre a própria imagem.
Por isso, torna-se necessário reconhecer que a objetificação feminina não termina com a vida. Em alguns casos, ela apenas muda de forma: deixa de vigiar o corpo presente para explorar a imagem ausente.
Vivemos em uma cultura capaz de transformar a feminilidade em patrimônio visual. Corpos, imagens e até tragédias tornam-se ativos econômicos. O filósofo Achille Mbembe descreveu como determinadas estruturas de poder administram a vida e a morte segundo lógicas de exploração. No capitalismo contemporâneo, essa lógica frequentemente se estende à própria imagem, como se a mulher, mesmo quando silenciada, ainda pudesse ser convertida em mercadoria.
O centenário de nascimento de Marilyn Monroe oferece um exemplo eloquente dessa permanência. Cem anos depois, sua imagem continua sendo reproduzida, reinterpretada e comercializada em escala global. A mulher desapareceu há décadas; a mercadoria, porém, permaneceu. Como tantas figuras femininas transformadas em mito, Marilyn foi preservada menos como pessoa do que como superfície de projeção.
Há algo profundamente perturbador nisso. O mesmo sistema que vigia, disciplina e explora o corpo feminino durante a vida encontra maneiras de continuar extraindo valor dele após a morte. O corpo deixa de ser apenas corpo: torna-se arquivo, símbolo, marca e produto. A mulher, por sua vez, é empurrada para a condição de lenda controlada por outros, como uma sereia cujo canto continua sendo explorado mesmo depois que sua voz foi retirada.
Talvez essa seja uma das expressões mais extremas do necrocapitalismo: não apenas administrar quem pode viver ou morrer, mas também decidir quais imagens continuarão circulando, lucrando e falando no lugar de quem já não pode responder.
Desse modo, a disputa pelo corpo feminino nunca foi apenas estética. Ela diz respeito a quem possui o poder de definir narrativas, estabelecer normas e determinar quais presenças serão legitimadas e quais serão transformadas em ameaça, fantasia ou mercadoria.
É também nesse contexto que surgem os pânicos morais que marcam o debate contemporâneo.
Nos últimos anos, a presença de mulheres trans em espaços públicos passou a ser tratada como uma ameaça por determinados grupos políticos e religiosos. Ao mesmo tempo, figuras como Erika Hilton tornaram-se alvo constante de campanhas de difamação e tentativas de deslegitimação. Em ambos os casos, a lógica é semelhante: determinadas mulheres são obrigadas a justificar continuamente o próprio direito de ocupar espaços que já deveriam lhes pertencer. Como bruxas diante de novos tribunais, são convocadas a provar sua humanidade perante uma sociedade que prefere suspeitar de sua existência a enfrentar as violências que realmente a atravessam.
Enquanto isso, problemas concretos continuam avançando, muitas vezes protegidos pela distração desses mesmos pânicos.
Os índices de feminicídio seguem alarmantes. Mulheres continuam sendo assassinadas por parceiros, ex-parceiros e familiares. Denúncias de violência doméstica seguem aumentando. A violência psicológica, durante décadas naturalizada, apenas recentemente começou a ser reconhecida em sua gravidade. Ainda assim, a energia do debate público frequentemente se concentra em espantalhos convenientes, enquanto as ameaças reais permanecem praticamente intactas. A monstruosidade, mais uma vez, é deslocada: não se nomeia a violência que mata, mas se aponta como perigo a mulher que exige viver.
Há, nisso tudo, algo profundamente revelador.
O medo raramente recai sobre mulheres que aceitam ocupar menos espaço. Ele se volta para aquelas que atravessam fronteiras, reivindicam autonomia e recusam a passividade. No fundo, a questão ultrapassa os direitos formalizados.
Toda vez que uma mulher cruza uma fronteira social, econômica, política ou simbólica, alguém tenta convencê-la de que aquele não é o seu lugar. Se ela canta, dizem que seduz; se conhece, dizem que ameaça; se não cabe em uma forma única, dizem que assusta.
É por isso que sereias, bruxas e quimeras continuam retornando ao nosso imaginário. Não porque sejam monstruosas, mas porque revelam o incômodo causado por mulheres que se recusam a aceitar os limites que lhes foram impostos. A sereia lembra que há vozes que não se deixam domesticar; a bruxa, que conhecimento também é forma de liberdade; a quimera, que nenhuma mulher precisa caber inteira na figura que tentam desenhar para ela.
Como sintetizou Ana Paula Renault, ganhadora da última edição do reality show Big Brother Brasil, em sua passagem pelo programa:
"Os homens sempre tiveram medo das mulheres que voam. Sejam elas bruxas, sejam elas livres."