Desde o princípio, desejamos narrar histórias. Sonhamos em assumir a voz de um narrador e reunir nossos textos e fotografias em um livro — algo que ainda realizaremos em breve. Por isso, foi natural nos posicionarmos como uma marca de “antologias”.

As narrativas acompanham a trajetória humana: descrevem acontecimentos, ensinam, explicam o inexplicável, fundam mitos, preservam saberes e expressam a potência da imaginação. O mesmo ocorre com o vestuário. Há registros de que o ser humano passou a se cobrir não apenas por necessidade, mas também para comunicar quem é. 

Esse processo também aconteceu com o processo da escrita. Desde o início, antes mesmo da escrita como conhecemos hoje em dia, já vimos tal processo se repetir. Os hieróglifos no antigo Egito registravam não apenas textos sacros, mas o cotidiano, a fé e a cultura desse povo, assim como em outras civilizações, orientais e ocidentais. Um caso emblemático que começa a amarrar essa relação entre narrativas e a capacidade de expressar a individualidade que as roupas proporcionam, foi a escrita cuneiforme, feita a partir de cunhas manuais, elas não seguiam padrões exatos, mudando pelo traço que cada escriba deixava no barro, dando-lhe um caráter único, mesmo que inconsciente.

Hieróglifos do reinado de Arkenaton

Não à toa, a palavra estilo deriva do francês stylo, caneta. Com isso, a escrita não se resume ao conteúdo, mas à maneira como ele se manifesta; a caligrafia carrega o corpo de quem escreve. Da mesma forma, a roupa não apenas cobre, mas revela a singularidade do corpo que a possui.

Esse paralelo não pertence apenas ao campo metafórico. A moda constitui um sistema tão complexo quanto a linguagem. Em O Sistema da Moda, Roland Barthes demonstra que a roupa funciona como um código: cada forma, tecido ou combinação produz significado dentro de uma estrutura cultural compartilhada. Vestir-se, portanto, é produzir discurso, ainda que silencioso.

No livro The Things She Carried: A Cultural History of the Purse in America, Kathleen B. Casey narra a importância cultural, social e política da bolsa ao longo dos anos: instrumento de privacidade, afirmação de direitos civis e raciais e meio pelo qual a comunidade LGBTQIA+ expressou e protegeu sua sexualidade. Logo na introdução, a autora descreve sua relação pessoal com uma ecobag desde a universidade até o início da vida adulta, percebendo como os significados relacionados a esse item se transformaram, de apenas um marcador de desleixo a símbolo de status cool.

Capa do Livro The Things She Carried: A Cultural History of the Purse in America

Assim, tanto o livro quanto o pensamento de Barthes reforçam aquilo que a Souedo propõe: ser uma marca de antologias vestíveis. Uma narrativa nasce no ateliê, mas ganha novos contornos a partir de quem a veste, demarcando gostos, ideias e, sobretudo, deslocando a Amazônia do lugar-comum frequentemente associado a estilistas da região.

Falamos, portanto, de uma Amazônia cosmopolita, não como oposição à floresta, mas como extensão dela. Um território que sempre foi circulação de pessoas, culturas e trocas, muito antes da ideia moderna de globalização. O chamado “pulmão do mundo” não é apenas uma metáfora ecológica, mas também simbólica: respira histórias, desejos e identidades em constante movimento.

Nossa potência é infinita, nossas vozes são múltiplas e a história de nosso povo merece ser ouvida e celebrada.

Se a roupa é linguagem, ela também possui tempo. Há momentos de origem, desenvolvimento e encerramento. Toda narrativa precisa respirar para que outra possa surgir, e aquilo que permanece não é apenas a matéria das peças, mas a memória acumulada nelas. Como sugere Walter Benjamin, certos objetos não apenas existem: eles retêm vestígios de vida. O uso deposita neles uma presença do passado, uma aura construída pela experiência.

Neste segundo ano de marca, nossa primeira narrativa termina. O arco dos criptídeos cede espaço a uma nova história que acreditamos precisar ser contada. Jamais esqueceremos nossas primeiras peças, o processo criativo e a entrada no mercado, as delícias e desafios de gerir uma empresa enquanto aprendemos em público, errando e acertando e nem as pessoas encontradas no caminho, especialmente aquelas que nos apoiaram desde o início.

Pessoalmente, guardo uma lembrança especial de uma peça: o Top Paisagem.

Pode-se descrevê-lo como um corset estruturado sobreposto por tururi — trama vegetal produzida pelo povo Tikuna — e painéis laterais de chiffon estampados com uma paisagem amazônica capturada em nossas fotografias analógicas. Para muitos, essa descrição bastaria. Para nós, ela sintetiza tudo o que foi dito até aqui: história, território, imagem e memória coexistindo em um único objeto.

Top Paisagem – Coleção Criptídeos; Souedo 2025.

No futuro, talvez se torne uma peça de arquivo no guarda-roupa de alguém, um pequeno museu particular onde podemos reencontrar a roupa entre outras e reviver memórias quando, onde e como a usamos. A história vivida com ela e a marca de onde nasceu criarão um vínculo imaterial.

Certos objetos atravessam mais do que corpos: atravessam tempos. Quando passam de uma pessoa para outra, deixam de registrar apenas memória e passam a produzir continuidade. 

No âmbito pessoal, imagino-a também como ponte entre gerações. Minha sobrinha, hoje recém-nascida, poderá usá-la anos depois: uma peça atravessando o tempo e ganhando novos sentidos, lembrando-lhe uma de suas origens e, talvez, aproximando-a da moda e do legado ainda em construção da Souedo. Nesse gesto, a roupa deixa de registrar memória e passa a estabelecer continuidade.

Penso então na minha sobrinha. Mesmo ainda estando recém-nascida, ela não herdará apenas uma peça, mas um enunciado anterior à sua própria experiência. Como escreve Hannah Arendt, cada nascimento reinsere o mundo no futuro. E talvez seja esse o destino último da roupa: não preservar quem fomos, mas permitir que alguém continue a partir de nós. 

Nesse momento, a antologia deixa de ser metáfora e finalmente acontece quando vestida.