Será que ainda existem sereias em nosso mundo?

No sentido literal — como um ser mitológico, um criptídeo, como as sereias de Fiji ou as de Homero — não. Seria leviano afirmar que seres híbridos como esses realmente existam ou tenham existido entre nós, ainda que os oceanos permaneçam em grande parte inexplorados.

Contudo, como metáfora — tal qual um je ne sais quoi, um fator “it” presente em algumas pessoas que as torna musas contemporâneas — talvez a resposta também não seja simples, mas não chega em um não.

Hella Hammid (1988)

Assim, a Souedo se pergunta: as sereias entraram em extinção?

Deparei-me com essa indagação durante uma viagem, ao folhear uma revista de moda que descrevia um ator em ascensão como um ícone moderno, quase um tritão contemporâneo. Fiquei um pouco em choque. Não se trata de negar seu talento ou carisma, mas de perceber que colocá-lo no mesmo território onde vivem tais mitos beirava o impossível.

Faltava -lhe aura.

Walter Benjamin descreve a aura como a presença única e irrepetível de algo no tempo e no espaço. Algo que não pode ser reproduzido, apenas experimentado. Ela depende da distância entre quem observa e aquilo que é observado.

Talvez por isso sempre tenha estado ligada à ideia de musa.

Dizia-se que as musas surgiam como um sussurro, quase um feitiço invocado. Na mitologia grega eram nove, não infinitas, porque a inspiração exige raridade.  É o mesmo que ocorre com as sereias. Quando se é confrontado com esse ser mitológico, encontra-se em estado de êxtase. Logo é contemplada sua forma; passa-se a perguntar onde ela habita, quando retornará e o que poderá provocar, dissecando assim uma cadeia de pensamento.

Apolo e as Musas; John Singer Sargent.

Por isso não pode ser reproduzida, principalmente em tempos de redes sociais.

O algoritmo emula padrões; a musa, e suas irmãs marinhas, inauguram eles, não se apropria deles. Seu papel é permanecer como origem. Não existe imagem-prova da musa, seja numa revista, seja num feed.

Talvez por isso certas pessoas possam parecer carregar algo quase biológico, intrínseco a eles, um gene “etéreo”, algo que não pode ser treinado nem performado. Ser musa não tem relação com beleza, gênero ou sexualidade, mas com distância. Não isolamento, e sim inacessibilidade, algo difícil hoje em dia. Pois mesmo próximas, elas não parecem disponíveis. Sereias e musas não aparecem para serem vistas, apenas surgem.  E só existem enquanto ainda podem ser ouvidas.

Hoje, porém, vivemos sob o regime descrito por Byung-Chul Han como a sociedade do cansaço. Entre celebridades pré-fabricadas e influenciadores que reproduzem uns aos outros, tudo se torna imediatamente acessível. 

A proximidade contínua dissolve a distância necessária para que algo permaneça. Logo, encontrá-las seria como procurar uma agulha no palheiro. 

Talvez então o problema não seja o desaparecimento das sereias, mas uma mudança no nosso olhar. Continuamos a vê-las, mas já não sabemos escutá-las. E, quando tudo precisa ser explicado, o mistério se converte em conteúdo. Como diante de um falso profeta, preferimos quem confirma nossas expectativas àquilo que nos desloca.

Assim, a pergunta não é se as sereias entraram em extinção, mas se ainda conseguimos sustentar a experiência de algo que não vem para nos servir.