
Cidade Anfíbia
Toda cidade nasce de um lugar, mas nem todo lugar aceita tornar-se uma cidade com facilidade.
Há territórios que se deixam moldar pela geometria humana: ruas que podem ser traçadas com régua, quadras que permanecem estáveis por décadas, edifícios que repousam sobre um solo previsível. Em outros casos, porém, o território não oferece essa estabilidade. Ele se move, inunda, recua e reaparece. A cidade, nesses casos, não pode simplesmente dominar o espaço: precisa aprender a negociar com ele.
Desde as primeiras civilizações, a água esteve no centro desse processo. Muitas das cidades mais antigas do mundo nasceram ao redor de rios. O Nilo estruturou o Egito antigo; o Tigre e o Eufrates sustentaram as cidades da Mesopotâmia; o Indo e o Ganges moldaram os assentamentos no subcontinente indiano. Esses rios não eram apenas recursos naturais, mas infraestruturas vitais: vias de transporte, fontes de alimento, sistemas de irrigação e elementos fundamentais na organização do imaginário coletivo.
A cidade, portanto, sempre teve uma relação profunda com a água. No entanto, ao longo da modernidade, essa relação passou a assumir formas distintas. Algumas cidades se consolidaram sobre a terra firme; outras se organizaram em torno de portos; e algumas poucas, raras e instáveis, permaneceram suspensas entre terra e água.
Essas diferenças revelam modos distintos de habitar um território.
Uma cidade como São Paulo, como por exemplo, é, antes de tudo, uma cidade terrestre. Sua expansão ocorreu sobre o planalto, apoiada em uma malha urbana rígida, composta por avenidas, quadras e edifícios que se multiplicam verticalmente. Seus rios, outrora parte integrante da paisagem, foram progressivamente canalizados, ocultados ou convertidos em infraestruturas invisíveis. A água tornou-se algo a ser domesticado, que, vez ou outra, devido às mudanças climáticas, relembra ferozmente que não pode ser contida.

Créditos: Prédios de São Paulos em analógicas por Daniel Azevedo; 2018.
Já em cidades portuárias, como Aveiro e Costa Nova do Prado, a relação com a água assume outra dinâmica. A cidade se volta para a água, organiza suas atividades econômicas ao redor dela, constrói cais, docas e portos. Ainda assim, permanece uma separação clara entre os dois domínios: cada um em seu lugar.

Créditos: Fotografia analógica da Costa Nova do Prado, feita por Daniel Azevedo em 2025.
Mas há cidades onde essa divisão não é evidente e nas quais as águas não podem ser contidas. Manaus é uma delas.
Pertencente a essa terceira categoria, ela não está simplesmente diante da água, nem se limita a utilizá-la como rota de circulação. Manaus encontra-se imersa em um sistema fluvial que transforma continuamente seu território. O rio sobe, recua, cria margens provisórias e redefine os limites da terra firme, de tal forma que a paisagem urbana não pode ignorar esse movimento. Por isso, Manaus pode ser compreendida como uma “cidade anfíbia”.
A cidade moderna, porém, raramente foi pensada para lidar com territórios instáveis ou para caber nessa classificação. O urbanismo que se consolidou ao longo do século XX partia de pressupostos fundamentais, entre eles a estabilidade do solo. Ruas, quadras e edifícios deveriam ser organizados sobre uma base firme e permanente. A água, quando aparecia, era tratada como obstáculo ou limite, uma concepção que ecoa o ideal utópico de cidade proposto na Carta de Atenas.
Em Manaus, no entanto, nenhum desses preceitos se firmou plenamente.
Historicamente, a cidade experimentou momentos de crescimento acelerado. Durante o ciclo da borracha, entre o final do século XIX e o início do século XX, Manaus tornou-se uma espécie de enclave cosmopolita no meio da floresta amazônica. Teatros, boulevards e edifícios inspirados na arquitetura europeia surgiram em um território que permanecia, ao mesmo tempo, profundamente marcado pela presença dos rios.
Décadas depois, com a criação da Zona Franca nos anos 1970, a cidade voltou a expandir-se rapidamente. A industrialização trouxe novas ondas de migração e um crescimento urbano que frequentemente ultrapassava os limites da infraestrutura existente. Nesse processo, muitas populações passaram a ocupar áreas frágeis do ponto de vista ambiental, sobretudo as margens dos rios e igarapés.
Essas áreas ribeirinhas tornaram-se parte essencial da cidade, embora raramente reconhecidas como tal pelo planejamento urbano oficial e pela lógica modernista de se pensar o espaço urbano.
Vistas de cima, essas ocupações formam um padrão curioso. Enquanto a cidade formal apresenta uma malha relativamente organizada, os assentamentos ao longo da borda d’água aparecem como fragmentos irregulares que acompanham o desenho sinuoso do rio. Eles se adaptam às variações do nível da água, convivem com o ciclo das cheias e utilizam estruturas elevadas, as famosas palafitas, para permanecer habitáveis mesmo quando o território se transforma.
Essas construções podem ser consideradas manifestações de um urbanismo anfíbio, pois buscam integrar-se ao rio em vez de subjugá-lo. Essa abordagem evidencia que o principal desafio não reside no curso d’água, mas na tentativa de implementar um modelo de cidade moderna que desconsidera a existência do rio ao adotar uma lógica organizacional europeia, alheia às particularidades regionais de um país de dimensões continentais como o Brasil.
É nesse ponto que surgem novas propostas urbanísticas que tentam reimaginar essa relação. Em vez de remover as comunidades ribeirinhas ou substituir completamente suas formas de habitar, alguns projetos procuram integrar essas áreas à cidade formal.
Um dos arquitetos a refletir sobre a importância dessa integração é Victor Hugo Azevedo. Nascido em Manaus, mas com uma trajetória acadêmica marcada por passagens pela University of Virginia e pela Columbia University, em Nova York, ele observa sua cidade natal a partir de uma perspectiva estratégica. Sua proposta consiste em estender a malha urbana até a água, criando estruturas que funcionem simultaneamente como infraestrutura urbana, espaço público e suporte para habitação.
Nesse projeto, a cidade não termina na margem do rio: ela avança sobre ele. Plataformas elevadas, passarelas e estruturas suspensas criam uma interface entre terra e água. Ao mesmo tempo em que conectam bairros consolidados às áreas ribeirinhas, esses dispositivos também podem desempenhar funções ambientais relevantes, como o tratamento de águas residuais, a captação de energia solar e a distribuição de água potável.
O resultado não é simplesmente uma expansão urbana. O que Victor Hugo propõe é uma transformação da própria ideia de cidade. Em vez de tentar estabilizar o território, esse tipo de urbanismo aceita a instabilidade como parte constitutiva da paisagem. A arquitetura torna-se elevada e leve, quase flutuante. A cidade deixa de ser uma estrutura rígida e passa a comportar um grau maior de adaptação.

Créditos: trabalho de conclusão de Victor Hugo Azevedo, no qual ele começa a repensar a arquitetura para Manaus, como para o Amazonas como um todo.
Para a Souedo, esse processo pode ser compreendido como uma ligação entre diferentes antologias narrativas. Em um momento anterior, a travessia entre água e terra era representada por uma figura mitológica que emergia do meio aquático, atravessava o mundo humano e retornava transformada ao seu elemento de origem. Uma criatura ambígua, situada entre dois territórios, incapaz de pertencer integralmente a apenas um.
Essas figuras são habitantes das zonas de transição. Elas aparecem em margens, rios, pântanos ou mares: lugares onde os limites entre mundos se tornam incertos. Sua existência sugere que determinados territórios não podem ser completamente domesticados pela ordem humana.
A Amazônia é um desses territórios, assim como outras cidades simbólicas que atravessam a reflexão proposta em O Lugar.
Imaginar o futuro dessas cidades talvez signifique aceitar que elas não podem permanecer imóveis. Elas precisam aprender a mover-se com a água, a negociar com seus ciclos e a reconhecer que certos lugares nunca foram feitos para uma estabilidade absoluta.
Em outras palavras, talvez seja necessário admitir que algumas cidades, como Manaus, não são apenas cidades sobre a terra. Elas são, inevitavelmente, cidades anfíbias: possíveis antecipações de um futuro no qual outras regiões, como partes do Sudeste brasileiro ou zonas costeiras de Portugal, também precisarão reaprender a conviver com o avanço das águas em um mundo cada vez mais incerto.