Em tempos de crise, tendemos a sonhar mais. Talvez porque a realidade, quando se torna insuportável, precise ser reorganizada através da fantasia. Não exatamente como fuga, mas como anestesia, projeção ou mecanismo de sobrevivência. 

Em períodos de guerra, colapso econômico ou medo coletivo, a imaginação quase sempre se expande. O desejo por outros mundos cresce na mesma medida em que o nosso parece se tornar pequeno.

Nada disso é exatamente novo. 

Durante a Guerra Fria, designers imaginavam roupas para uma humanidade que viveria entre estrelas, cápsulas espaciais e cidades futuristas. A chamada” Space Age” não falava apenas sobre tecnologia, mas sobre a necessidade de acreditar que existia algo além da ameaça nuclear. Em meio a esse medo, criava-se um imaginário branco, plástico, metálico e otimista. Antes disso, durante a Segunda Guerra Mundial, Hollywood transformou o Technicolor em ferramenta de encantamento. Filmes como O Mágico de Oz (1939) criavam mundos impossivelmente e vibrantes, enquanto o planeta assistia a bombas, genocídios e cidades sendo reduzidas a ruínas. O excesso de cor funcionava quase como um sedativo coletivo, inclusive, com as mesmas cores de barbitúricos.

Créditos: O Mágico de Oz; 1939.

Hoje, o cenário não mudou tanto. Continuamos produzindo fantasia diante da sensação de esgotamento. Vivemos um momento em que o capitalismo já não precisa mais se justificar moralmente perante ninguém. Como escreveu Frédéric Neyrat:  atravessamos uma era em que o medo deixou de ser exceção para se tornar atmosfera permanente. O horror contemporâneo não aparece apenas como catástrofe, mas como uma sensação contínua de colapso iminente. Uma realidade atravessada por guerras, algoritmos, inteligência artificial, mudanças climáticas e pela percepção de que já não existe mais um sistema econômico capaz de combater o atual e suas consequências.

Talvez por isso a moda tenha se tornado tão obcecada pelo onírico. As passarelas mais recentes parecem focadas em construir refúgios temporários através do escapismo.

Nos últimos desfiles, isso se tornou ainda mais evidente. Na estreia de Matthieu Blazy na alta-costura da Chanel, o estilista apresentou um cenário tomado por cogumelos gigantes, salgueiros rosados e paisagens que pareciam saídas simultaneamente de uma floresta encantada e de um ecossistema pós-humano. Muito se falou da sua percepção a esse saber manual restringidos a algumas marcas centenárias, mas talvez o mais interessante estivesse justamente nos fungos do cenário.

Os fungos carregam algo profundamente simbólico e muito latente para o nosso tempo. São organismos ligados tanto à decomposição quanto ao nascimento. Há algo de extremamente contemporâneo nisso: imaginar futuros possíveis não a partir da pureza ou do progresso, mas da adaptação, da simbiose e daquilo que nasce depois do colapso.

Creditos: Chanel, Alta Costura verão 2026

Em outra direção, a Dior apresentou recentemente um desfile cruise em Los Angeles, atravessado pelo imaginário do film noir. Personagens ambíguos, silhuetas misteriosas e sombras dramáticas reapareciam não apenas como referência estética, mas como sintoma cultural. 

Créditos: Desfile Dior cruise 2026.

O noir sempre foi um gênero sobre desconfiança. Sobre personagens incapazes de distinguir verdade de manipulação. Sobre um mundo moralmente instável, onde todos parecem esconder alguma coisa, ele volta a fazer tanto sentido agora. Vivemos cercados por imagens artificiais, notícias falsas, vídeos fabricados por inteligência artificial e uma sensação constante de dúvida diante do real. Tornamo-nos detetives precários tentando sobreviver em meio a um excesso de versões conflitantes da verdade. Além de evocar uma nostalgia de uma Hollywood mítica de uma América com um soft power capaz de moldar o imaginário mundial.

E talvez seja justamente por isso que a moda contemporânea tenha se tornado tão repetitiva: a nostálgica e o onírico estão por todas as partes. Nos últimos meses, as discussões em torno das semelhanças entre coleções apresentadas no Rio Fashion Week reacenderam um debate antigo dentro da moda brasileira sobre a originalidade. 

O problema talvez não esteja apenas na cópia em si, mas na produção contínua de simulacros internacionais. Durante muito tempo, parte da moda brasileira operou quase como tradução periférica de códigos europeus e norte-americanos, advindo desse soft power que tais potências costumavam exportar. O resultado é uma sensação estranha de familiaridade: roupas que parecem ecos de outras roupas, coleções que lembram versões desfocadas de referências já consumidas milhares de vezes no online.

Criar algo original exige a esperança de um futuro. Demanda acreditar que existe algum lugar simbólico para onde se mover. Mas, o que acontece quando uma geração inteira cresceu sentindo que o amanhã pode colapsar a qualquer momento? Quando tudo já parece imediatamente absorvido por algoritmos, Pinterest, inteligência artificial e ciclos acelerados de tendência? A sensação não é mais a de construir imagens inéditas, mas de reorganizar visuais que já existem, já que talvez não haja mais tempo para pensar numa vestimenta para o mundo de amanhã.

No Brasil, tudo isso ganha uma dimensão ainda mais específica. Existe hoje uma sensação coletiva de desencanto em relação à própria ideia de futuro. Durante décadas, o país foi apresentado — para o mundo e para os próprios brasileiros — como uma promessa de crescimento, potência e progresso. Essa narrativa, porém, parece cada vez mais desgastada.

A ascensão da extrema-direita global, a polarização política constante, a instabilidade econômica e a influência crescente dos Estados Unidos sobre a América Latina produziram uma espécie de fadiga social. Muitos brasileiros já não acreditam que conseguirão construir estabilidade, segurança ou perspectiva de futuro dentro do próprio país.

Ao mesmo tempo, o chamado “sonho americano” também parece cada vez mais distante para corpos latino-americanos. Com isso, cresce o número de pessoas migrando para países vizinhos, como o Paraguai, em busca de uma vida mais barata, menos burocrática ou de ambientes onde sintam que suas opiniões encontram acolhimento – mesmo quando essas opiniões também são atravessadas por radicalização, ressentimento ou desinformação.

No fundo, tudo isso revela algo maior: a dificuldade contemporânea de imaginar pertencimento, futuro e coletividade.

Talvez por isso o escapismo contemporâneo oscile tanto entre dois impulsos: imaginar mundos fantásticos ou revisitar estéticas produzidas em outros períodos de crise. De um lado, criptídeos, florestas encantadas, fungos, estrelas e criaturas híbridas. Do outro, o noir, a paranoia, o colapso urbano e a nostalgia. 

Créditos: The Third Man (1949)

Voltando os olhos a Chanel, também é possível observar mais uma vez essa tendência, já que a Maison francesa se voltou para figuras ligadas ao mar. Sereias aparecem como imagens possíveis de um futuro anfíbio. O curioso é que, anos antes, durante a coleção de primavera/verão 2012 da Chanel, ambientada em um universo submarino branco e perolado, Karl Lagerfeld rejeitou explicitamente a ideia de incluir sereias no desfile:

“but as you see, I avoided mermaids. We have not one. That would be the cheapest commonplace possible.” (em tradução livre: como vocês podem ver, eu evitei sereias. Não temos nenhuma. Isso seria o clichê mais barato possível.).

Hoje, porém, elas parecem inevitáveis. Se o século XX imaginou o espaço como destino utópico, o XXI começa a imaginar a água, uma vez que boa parte dele permanece amplamente desconhecido e o avanço climático esteja tornando a ideia de cidades parcialmente submersas menos ficção científica e sim numa realidade inevitável.

Créditos: Campanha da Chanel para a coleção cruise de 2026.

Depois de décadas olhando para cima, começamos novamente a olhar para baixo. Para o fundo do mar, para fungos subterrâneos, para criaturas híbridas, para territórios inundados. O imaginário contemporâneo parece entender que o futuro talvez não esteja mais na transcendência da natureza, mas na adaptação a ela – se ainda houver tempo – como tentativa de imaginar novos corpos, novos territórios e novas formas de existir em um mundo que já começou a mudar antes mesmo de estarmos preparados para isso.

Nesse contexto, fica a dúvida: qual será nossa vestimenta para o inverno nuclear? Uma roupa de proteção, construída para resistir à radiação ou uma fantasia delirante, brilhante e onírica, criada apenas para dançarmos sobre os destroços da civilização?

Referências Bibliográficas:

NEYRAT, Frédéric. Fobopolítica: uma análise do pavor contemporâneo. In: ELECTRA. O medo. Lisboa: Fundação EDP, n. 30, outono 2025, p. 58-62.

PEREIRA, Renata. Criações de destaque das passarelas da Rio Fashion Week foram além da coincidência. Folha de São Paulo, São Paulo, 5 maio 2026. Ilustrada. Disponível em:  Folha de São Paulo.

OLIVEIRA, Rener. Publicações e comentários sobre semelhanças estéticas, simulacros internacionais e referências na moda brasileira contemporânea. Instagram, 2026. Disponível em:  @reneroliveira no Instagram,

KIRREH, Michael. “Mermaids at Chanel!”. TikTok, 2026. Disponível em:  @michaelkirreh tanto no instagram quanto no Tiktok.