
Criptídeos na Moda: Como Lendas e Mitos Inspiram Estilos e Transformam a Cultura Pop
Os criptídeos são criaturas misteriosas e muitas vezes baseadas em lendas, mitos urbanos e oratória regional, são objetos de estudo da criptozoológia. Trata-se do estudo de seres hipotéticos cuja existência, mesmo que pouco provável, ainda instiga muita gente, nisso englobando desde o enigmático Saci-Pererê, o temido Monstro do Lago Ness ou intrigantes seres da mitologia greco-romana.
Sendo verdade ou não, essas criaturas misteriosas alimentam a imaginação humana há séculos e estão consolidadas na cultura pop. O que muitos não sabem é que esses seres, muitas vezes fruto da mitologia e do desconhecido, têm deixado uma marca significativa também no universo da moda, sendo até mesmo uma forma de compreensão para estilos, conceitos e pessoas “outsiders”. Essas pessoas, que não se enquadram às “regras”, parecerem diferentes ou irreais em determinados contextos, são vistos como mitológicos, tanto positivamente como negativamente.
Os criptídeos sempre foram símbolos de mistério e terror. Quando pensamos numa linha temporal, a presença de um ser fantástico, cuja história se relaciona com a moda, pensamos logo no mito de Aracne, da mitologia grega.
A Aracne era uma jovem tecelã famosa por sua habilidade no tear. Ela afirmava que suas habilidades superavam até mesmo as da própria deusa Atena. Irritada com tamanha blasfêmia, a deusa a deafiou a uma batalha de fiar, onde as duas competiriam para saber qual delas era mais habilidosa em criar tecidos.
Ao decorrer do desafio, Atena, não fora capaz de superar a maestria de Aracne, que por sua vez, havia tecido um dos mais belos tecidos já então elaborados ao retratar ricamente os feitos e os defeitos do panteão grego. Após a batalha, Aracne destacou-se pela seu talento e habilidade na tecelagem, portanto vencendo o desafio.
Irritada tanto pela derrota, quando pela ousadia da mortal em retratar os seus de forma desrespeitosas, a deusa da sabedoria não ponderou em castigá-la.
Aracne ganhou, mas ela e sua prole foram castigadas para toda eternidade. Atena a condenou a ser a melhor das artesãs, pois não tinha como negar suas habilidades. Mas agora, a artesã faria isso de um jeito torpedo, como uma aranha.
Alguns séculos depois, já na era cristã, a serpente do paraíso serve como um criptídeo, pois ao expor Adão e Eva ao pecado original, ela não só fez Deus os expulsarem do paraíso, mas também os fez cobrir suas vergonhas com roupas.
Há inúmeros exemplos que compreendem desde essa passagem até era moderna. Uma miríade de seres mágicos fora catalogada e registrada em bestiários medievais sobreviventes até os dias atuais, cujas gravuras hora e outra tornam-se estampas. Seres como Unicórnios, Sereias, répteis, são constantes inspirações para estilistas mundo a fora. Tanto por sua imagética ou metáforas.
Nas últimas décadas, esses seres passaram a ser cada vez mais celebrados na cultura pop. Filmes, séries de TV e quadrinhos têm mostrado essas criaturas de formas cada vez mais estilizadas, com suas características místicas e animalescas sendo reinterpretadas no design de moda.
Dessa forma, moda e criaturas lendárias caminham juntas de maneira inusitada. Desenhistas e estilistas se inspiram nessas figuras para criar estampas, silhuetas ou mesmo reimaginar o ser humano por meio dessa metáfora.
Podemos afirmar que Alexander Mcqueen em sua icônica coleção S/S 2010, Plato’s Atlantis, foi um fruto desse caminhar entre moda e criptozoologia, ao reimaginar um mundo onde os seres humanos voltavam ao mar mudando por completo sua morfologia. Assim, o desfile apresentou seres místicos, uma espécie de mulher que não pertencia nem as passarelas e muito menos ao mundo real. Pertencia a narrativa que ele criara naquele momento para sua coleção e talvez dentro de alguns livros mágicos ou mapa dos mares medieval.
Surgiam na passarela, modelos com saltos vertiginosos até então nunca vistos, esses mesmos saltos imortalizados por Lady Gaga no aclamado videoclipe de um de seus grandes sucessos: Bad Romance. Além dos sapatos, as modelos surgiam com cabelos torcidos para atrás e roupas com uma modelagem experimental, com escamas iridescentes, com tecidos que brilhavam como água-viva e estampas que mixavam diversas texturas de diferentes animais, criando um ser mitológico, feito por um mito em vida.
Esses seres não só estão restritos a ideias que pavimentam criações de moda ou inspiram filmes ou lendas urbanas. Eles ganharam as ruas ao redor do mundo, ultrapassando as tramas das roupas de quem os portam para descrever pessoas que não se conformam em existir de uma forma que não seja fantástica.
Se você olhar atentamente, verá que em toda parte há criptídeos. Alguns são mais fáceis de se identificar pois, quando juntos, formam tribos urbanas, portando roupas e seguindo comportamentos desviante da norma social. As subculturas, quando tratadas como um grupo homogêneo, podem ser encarados dessa forma. Passando dos Punks aos Góticos, as Clean Girls do nosso século até as Lolitas Japonesas. As peças não são apenas roupas, mas uma forma de expressar a visão de mundo daqueles que acreditam no fantástico.
Embora haja tais grupos que se relacionam com o conceito de criptídeos, também há aqueles que, individualmente, se destacam por si só. A moda se inspire em monstros, ela também é capaz de criar monstros. Mas no bom sentido: monstros sagrados, cuja existência e feitos para indústria os imortalizaram como lendas, desafiando a nossa compreensão da veracidade se suas existências.
Mcqueen é uma dessas lendas, assim como inúmeros designers que reinventaram o mundo com suas próprias narrativas. Assim como editores a lá Diane Vreeland e Regina Guerreiro que reinventaram a forma de consumir moda, chegando até mesmo as celebridades: “cisnes de Capote”, a Mãe dos Little Monsters e Madonas não virginais, excomungadas da igreja, mas ainda assim divinas.
No fim, a moda, como os próprios criptídeos, desafia o ordinário e nos força a olhar para o que é híbrido, excêntrico e fora das normas. Em sua essência, ela é atravessa mundos e épocas, repleta de mitos, lendas e interpretações. Ao reimaginar e dar forma ao que antes parecia inatingível, a moda nos mostra que o extraordinário não está tão distante: ele vive nas ruas, nos palcos e, principalmente, em nossas escolhas.