Existe uma imagem recorrente quando se fala da Amazônia, principalmente no que ela foi no final do século XIX: a de um teatro opulento no meio da mata, como um delírio, algo que parece possível apenas através do filme Fitzcarraldo. Contudo, esse teatro existia e ainda existe. E aquela mata estranha que o circundava era Manaus.

Antes de qualquer fantasia cinematográfica, Manaus já havia se imaginado como um Eldorado moderno, graças ao extrativismo da borracha e às bonanças que ela trouxe ao local. Pela primeira vez, a cidade não se orientava pelo restante do país, mas diretamente pela Europa, chegando a ser considerada a Paris dos Trópicos.

O Teatro Amazonas, usado no cinema como a megalomania de um louco, foi a materialização desse fausto.

Na virada do século, Manaus não era apenas uma cidade em crescimento. Era um experimento de futuro cravado no meio da floresta. Basicamente duas cidades em uma: uma que sonhava em ser Paris e outra que continuava sendo parte da floresta e subdesenvolvida. Uma cidade real e outra imaginada coexistiam no mesmo território.

Foi nesse cenário paradoxal que chegaram tantos imigrantes, como os portugueses. Alguns participaram do espetáculo, dando início à era dos “Js”, casas comerciais e firmas familiares identificadas pelas iniciais de seus donos, que marcaram a economia da Belle Époque Amazônica.

Enquanto essa elite frequentava salões iluminados, havia quem acordasse antes do amanhecer para abrir mercados, lavar roupas, vender verduras, carregar caixas e manter o cotidiano funcionando. A história de Manaus não se fez apenas de barões da borracha. Fez-se também daqueles que não deixaram rastros, dos que não construíram a imagem da cidade, mas sustentaram sua existência.

Entre eles estava o embrião do que se tornaria a minha família.

Até onde podemos catalogar, meus antepassados vieram ao norte do país com a promessa de mudar de vida. Durante um tempo essa promessa pareceu sólida: havia trabalho, movimento e a sensação de que o mundo passava por ali, em meio ao Mercado Adolpho Lisboa, onde começaram a tirar seu sustento das quitandas.

Créditos: Interior do Mercado Adolpho Lisboa; Fotografia Analógica por Daniel Azevedo 2025.

Mas Portugal jamais desapareceu das memórias dos meus tataravôs, o casal fundador da mítica familiar.

Suas origens não foram esquecidas, reapareciam nos sotaques, nas orações e nas comidas. Portugal não era apenas um lugar geográfico, era um lugar interior, um refúgio imaginado quando a vida se tornava temerária.

Eles vinham de Albergaria-a-Velha, perto da Ria de Aveiro. A lembrança daquela paisagem era concreta: água fria, vento atlântico e as casas listradas de pescadores da Costa Nova do Prado, que desenhavam em suas mentes o significado da palavra saudade. Mesmo à distância, continuavam habitando aquela paisagem.

Mesmo assim, Manaus era a única aposta possível de um futuro. E ali ficaram. Tiveram um filho, que carregava o nome do pai como quem tenta amarrar continuidade num território incerto. Como um pequeno Éden doméstico, uma origem se formava ali: um casal, um filho, trabalho, fé e promessa divina. Mas, como todo Éden, também carregava a possibilidade da expulsão.

A vida seguiu para a lavadeira e o verdureiro. Madrugadas repetidas, o mercado como horizonte visível. O menino crescia entre caixas, o encontro das águas e entre duas pátrias, aprendendo desde cedo que pertencer pode significar dividir-se.

Primeira geração da família Azevedo a morar em Manaus (AM).

Então vieram os reveses, e o Éden foi queimado. O projeto de mundo mostrou sua fragilidade. Pouco depois veio o fim do ciclo da borracha, encerrando a economia e lançando a Paris dos Trópicos ao ostracismo. A cidade deixou de ser centro do mundo e tornou-se periferia dele. O magnífico teatro foi fechado. O Eldorado havia terminado e com ele a ideia de um lugar definitivo.

Meu tataravô voltou sozinho para Portugal tentando reconstruir a vida que ele começara a formar no Brasil, abandonando a esposa e o filho em Manaus. No entanto, as coisas não melhoraram por lá. Sua volta se tornou definitiva: ele faleceu em sua terra natal, embora esse lugar já não fosse o mesmo de antes. Mais tarde, minha tataravó e o meu bisavô, ainda criança, também atravessaram o oceano.

Como na passagem bíblica da fuga de Sodoma, não era permitido olhar para trás sem pagar um preço. Mas a memória insistiu. Eles olharam. Não foram transformados em sal, mas tornaram-se incapazes de se fixar naquilo que chamavam de Portugal, pois a volta não era recuperação do tempo passado além-mar, mas a descoberta de que nenhum lugar permanece intacto.

Como Heráclito escreveu sobre o rio, também não caminhamos duas vezes pela mesma cidade. E, como diria Gaston Bachelard, habitamos menos os lugares do que as imagens que guardamos deles: a casa listrada lembrada naquela pátria não coincide com as palafitas construídas sobre o rio.

Entre Manaus e Portugal não ficou apenas uma rota marítima, mas um movimento contínuo. Um trânsito que perdura até hoje na minha família: viagens, retornos, visitas, lembranças herdadas.

A repetição ritual de atravessar esse caminho sobreviveu a cada geração, ao ponto de não pertencermos a um único lado, mas ao percurso e à persistência da memória da rota transatlântica dos que já se foram.

Durante muito tempo acreditei que essa história dizia respeito apenas à minha família. Hoje entendo que ela é mais do que isso. Toda casa é uma primeira pátria e toda partida inaugura outra que nunca coincide totalmente com a anterior. Herdamos mapas internos, alguns precisos, outros inventados, pelos quais continuamos nos orientandos mesmo quando o território já mudou.

Por isso a vida é uma sucessão de regressos imperfeitos. Procuramos repetir a primeira paisagem, mas encontramos sempre outras versões, miragens e simulacros.

Não podemos repetir o passado. E talvez um lugar seja isso: Não um ponto fixo no mapa, e sim a força que organiza nossas partidas e retornos mesmo depois que a paisagem desaparece.