
O lugar dos objetos: memória e permanência
Li Os Últimos Pianos da Sibéria há alguns anos (2020), para ser mais exato, no mesmo ano de seu lançamento.
Hoje, não tenho mais o exemplar.
Em algum momento, o dei de presente ao meu psiquiatra. Não me recordo exatamente o porquê. Talvez tenha imaginado que ele gostaria da leitura. Talvez tenha acreditado que o livro encontraria nele um leitor mais atento do que eu era naquele momento. Hoje já não saberia dizer.
O que sei é que continuo pensando nesse livro ⎯ natural, já que esse foi uma das melhores leitura que já fiz.
Isso me parece curioso porque minha memória do livro está longe de ser completa. A memória falha. Já não me lembro dele por completo. Contudo, o cerne do livro permanece intacto na minha mente: os pianos espalhados pela Sibéria.
À primeira vista, a cena parece absurda. O que um piano faz na Sibéria?
A resposta para isso atravessa séculos de história.
Quando Catarina, a Grande (1729 – 1796), aproximou a Rússia dos costumes europeus, a música passou a ocupar um lugar cada vez mais importante na vida das elites. Antes mesmo da popularização do piano moderno, instrumentos como o cravo e o clavicórdio já circulavam pelos salões da corte. Mais tarde, o pianoforte se consolidaria como símbolo de refinamento e pertencimento cultural.

Créditos: Coroação de Catarina, a Grande por Vigilius Eriksen.
Possuir um piano significava mais do que possuir um instrumento. Era uma forma de afirmar quem se era. Por isso, quando a história começou a deslocar pessoas, os pianos partiram junto.
Assim, durante o exílio forçado devido a Revolução de 1917, muitas foram famílias obrigadas a abandonar suas cidades, carregando consigo aquilo que conseguiam salvar. Alguns instrumentos chegaram à Sibéria dessa forma, acompanhando seus proprietários. Outros foram escondidos, protegidos ou simplesmente esquecidos em lugares tão distantes que acabaram sobrevivendo aos conflitos que transformaram o país.

Créditos: Última Czarina da Russia, Alexandra Feodorovna, tocando piano; circa 1913.
O que me impressionou no livro não foi apenas a trajetória desses instrumentos, mas a forma como eles continuam existindo.
Muitas das pessoas que tocaram naqueles pianos desapareceram. Morreram em guerras, expurgos, campos de trabalho ou no desgaste silencioso do tempo. Os instrumentos, porém, permaneceram ali, ocupando diferentes espaços, como testemunhas silenciosas de vidas daqueles que já não existem.
Em algum momento, a investigação de Roberts deixa de ser uma busca por pianos e passa a ser uma reflexão involuntária sobre a relação entre memória e matéria.
Existe algo profundamente humano no impulso de salvar um objeto. Não por sua utilidade. Mas, porque ele guarda uma versão de quem fomos.
Uma fotografia esquecida numa gaveta, uma peça de roupa herdada ⎯ exemplificado no livro O Casaco de Max, que também se passa na época desses conflitos históricos, uma carta antiga ⎯, um móvel que atravessa gerações ou um piano transportado para o outro lado do mundo passam a desempenhar uma função que vai além daquela para a qual foram criados, tornando-se recipientes da memória.
É por isso que eu continuo pensando nesse livro.
Com o tempo, comecei a perceber que grande parte da nossa vida fica guardada em objetos que, à primeira vista, parecem sem importância. Não nas grandes conquistas nem nos acontecimentos extraordinários, mas nas coisas que permanecem conosco ao longo dos anos e que continuamos guardando mesmo sem saber exatamente o porquê.
É impossível não pensar também na forma como nos relacionamos com os lugares.
Durante muito tempo acreditamos pertencer às cidades onde nascemos. Depois percebemos que a relação é menos geográfica do que imaginávamos. Os lugares continuam existindo dentro de nós, moldando nossa maneira de falar, de lembrar e de organizar o mundo. Mesmo quando partimos.
Funcionam como pequenas âncoras lançadas contra o esquecimento.
Talvez seja por isso que os pianos da Sibéria continuam assombrando os umbrais da minha mente, mesmo tanto tempo depois da leitura. Não por serem instrumentos musicais. Mas, porque materializam algo que passamos a vida inteira tentando compreender: o que permanece quando tudo o mais desaparece.
Os donos daqueles pianos morreram, as casas mudaram, as cidades se transformaram e os regimes políticos surgiram e caíram. Ainda assim, os instrumentos continuaram ali.
Talvez seja essa a função dos objetos e dos lugares que amamos: não impedir a passagem do tempo, mas conservar algo dela.
No fim, Os Útimos Pianos da Sibéria falam menos sobre música mais sobre permanência. Sobre aquilo que continua existindo depois da partida. Às vezes na forma de um objeto. Às vezes na forma de um lugar.
Principalmente do lugar.
