
O Lugar Onde o Amanhã Dorme
Em que lugar estamos quando sonhamos? O corpo permanece na cama, enquanto algo atravessa o mundo material e abre uma janela para o espaço que chamamos de inconsciente.
Durante algumas horas, percorremos lugares que desaparecem quando tentamos descrevê-los. Ao despertar, restam fragmentos: um rosto, uma escada, uma sensação difícil de nomear. Às vezes, fica a leveza de um sonho agradável; em outras, o peso de um pesadelo.
Ao refletir sobre o espaço onírico, percebemos uma geografia que se transforma à medida que é percorrida. Aceitamos essas mudanças com uma naturalidade impossível no estado de vigília.
Depois, procuramos organizar tudo em uma narrativa, atribuir continuidade ao que era descontínuo e explicar aquilo que talvez não admita explicação. A psicologia analítica de Jung, ao relacionar os sonhos às imagens, experiências e símbolos que atravessam a vida coletiva, ajuda a compreender esse movimento: sonhamos com o que vivemos, mas também recriamos a realidade no campo de Morfeu.
Mais do que investigar o que acontece enquanto dormimos, interessa pensar em como os sonhos e os pesadelos revelam nossa relação com o futuro. Entre esperança e medo, o espaço onírico se torna uma forma de refletir sobre o país que desejamos construir e sobre as ameaças que já projetam sua sombra no presente.
Talvez por isso a palavra sonho desperte sentimentos tão distintos. Ela nomeia tanto aquilo que desejamos construir quanto uma experiência sobre a qual não tivemos controle. No mesmo termo convivem vontade e entrega, projeto de vida e vulnerabilidade. O amanhã ocupa lugar igualmente ambíguo: pode ser desejado, embora não seja possível determinar o que virá.
Essa questão ganha força em certos períodos. Ao projetar o futuro, deparamo-nos com uma mistura de expectativa e apreensão. Existe a vontade de continuar criando, escrevendo e vendo o trabalho alcançar outras pessoas; há também o desejo de envelhecer em um lugar onde ainda se reconheça alguma forma de bem-estar social. Ao lado dessas imagens, porém, surgem outras: portas se fechando, palavras sob vigilância, pessoas aprendendo novamente a ocultar partes de si e obrigadas a permanecer “atentas e fortes”.
Essas imagens não devem ser tomadas como previsões. O medo pode ampliar perigos, aproximar ameaças e ocupar antecipadamente um espaço que permanece aberto. Ainda assim, certas inquietações não nascem apenas no interior de cada pessoa. Elas pertencem também ao zeitgeist, o espírito do tempo, que atravessa a coletividade e nos acompanha até a cama.
O mundo não permanece do lado de fora quando apagamos a luz.
Em O Pesadelo, de 1781, Henry Fuseli, também conhecido como Johann Heinrich Füssli, retrata uma mulher adormecida, com uma criatura sentada sobre o tronco e uma cabeça de cavalo emergindo da escuridão. É a pintura à qual retorno quando penso no medo adquirindo peso: a ameaça ocupa o corpo e se instala sobre ele. O pesadelo parece ter encontrado onde se sentar.
O que prende a atenção nessa cena é a possibilidade de imaginar a dificuldade de respirar. Algumas angústias se assemelham a isso: aquilo que se teme ainda não aconteceu, mas sua pressão já pode ser sentida. A imagem dos cavalos derrotados por bolinhas de gude, condenados a repetir indefinidamente uma tarefa absurda, acrescenta outra camada a esse temor. Não se trata somente da ameaça, mas da sensação de estar preso a uma prova que precisa ser refeita, como se o fracasso anterior jamais pudesse ser superado ou convertido em aprendizado.

Créditos: The Nightmare Woman Horse Spirit Demon Romantic Painting By Henry Fuseli.
O futuro se antecipa e reivindica espaço no presente. Passamos o dia reagindo a uma possibilidade, ensaiando perdas e tentando descobrir como nos proteger de algo que ainda não possui forma definida, mas que já se mostrou bastante tangível em nossa sociedade.
Em certos momentos, parece que o país inteiro desperta de repente, como se um gigante adormecido abrisse os olhos. Nem todo despertar, contudo, produz lucidez. Por vezes, aquilo que se anuncia como renovação apenas libera forças antigas, ressentimentos acumulados e fantasmas que pareciam vencidos.
Um país também se revela, portanto, pelo espaço que oferece aos sonhos de seus habitantes. Alguns conseguem planejar com tranquilidade; outros precisam incluir, nesses mesmos planos, uma rota de fuga. Para uns, o futuro representa expansão; para outros, a esperança mais urgente é preservar o lugar que conquistaram: poder trabalhar, amar, criar, acreditar ou não acreditar, sem pedir desculpas por existir nem ser assombrado pelos pesadelos e pelas criaturas do passado.
A solidão igualmente pode assumir a forma de exclusão. Ela surge quando alguém vive cercado de pessoas, mas não encontra um lugar onde seja reconhecido. A ausência começa antes da partida: nasce quando se busca uma imagem do amanhã e não se encontra nela espaço para si. O que acontece quando alguém já não consegue se imaginar no futuro do lugar onde vive? Talvez seja então que a cidade, embora cheia, comece a parecer desabitada.
Talvez o pesadelo coletivo se construa assim, pouco a pouco. Retira-se uma possibilidade, depois outra. Uma violência passa a ser recebida com indiferença; uma ameaça adquire tom de brincadeira. O que antes levaria alguém a interromper uma conversa torna-se parte do ruído cotidiano, até que se aprende a viver em um espaço menor e se chama esse encolhimento de realidade.
Há, porém, sonhos que ampliam o lugar que habitamos. Imaginar uma vida melhor pode restituir a disposição para agir, aproximar pessoas e originar um projeto. Essa possibilidade é indispensável. Quando atravessada apenas pelo medo, a lucidez corre o risco de se tornar uma maneira de desistir antes da hora. É possível reconhecer os perigos e, ainda assim, desejar algo além da sobrevivência.
A esperança não precisa funcionar como fuga do presente; pode ser uma forma de nele permanecer com mais atenção. Quando a realidade cansa, ainda podemos buscar apoio no próprio chão, reconhecer o que existe e imaginar o que é passível de transformação. Nesse caso, o sonho não promete outro mundo: ajuda a construir uma relação diferente com este.
Na criação, esse movimento é familiar. Uma imagem surge antes que se saiba como realizá-la. Busca-se, então, uma matéria, uma palavra ou um gesto capaz de lhe dar presença. Algumas tentativas fracassam; outras se transformam ao longo do percurso. O sonho encontra, aos poucos, suas condições de existência. O mesmo processo pode ser reconhecido na vida em comum: trata-se de aproximar aquilo que se deseja do que efetivamente se faz.
À medida que se aproximam as próximas escolhas, surge a imagem do país em que gostaríamos de acordar. Não se espera encontrar tudo resolvido. Bastaria abrir os olhos e sentir que ainda é possível discutir o caminho, rever uma decisão e discordar sem desejar o desaparecimento do outro. Que o amanhã continue oferecendo espaço a pessoas que jamais sonharão exatamente da mesma maneira.
Talvez seja isso o mais assustador: a possibilidade de um sonho de grandeza que só se realize ao produzir o pesadelo de alguém.
Ainda queremos sonhar: dormir sem carregar o país inteiro sobre o peito. Que a noite devolva algum descanso ao corpo e que, pela manhã, permaneça a vontade de abrir a janela. Parte desse repouso, contudo, depende do que fazemos enquanto estamos acordados. Certas coisas precisam ser cuidadas antes que a luz se apague.
Ainda não sabemos como será o amanhã. Podemos imaginá-lo com espaço suficiente para todos e esperar que, quando chegar, seja possível nos reconhecermos nele, sem esconder quem somos para afirmar que estamos em casa.
Talvez por essa razão a gravura de Francisco de Goya, O sono da razão produz monstros, permaneça uma imagem tão poderosa para este momento. Nela, uma figura adormecida repousa a cabeça sobre os braços, enquanto corujas e morcegos se acumulam ao redor.
A obra sugere que, quando a razão adormece, os monstros encontram passagem. Ao mesmo tempo, recorda que despertar não significa apenas retornar à consciência: implica assumir a responsabilidade de olhar para as criaturas surgidas na escuridão e decidir o que fazer com elas: deixá-las nos sonhos, ou mesmo nos pesadelos, ou trazê-las de fato à realidade.
