
A Repetição das Coisas: Entre o Efêmero e o Eterno
Em menos de um ano, nossa exposição retorna mais uma vez.
Lembro-me muito bem da primeira vez que mostramos esses quadros. Foi a realização de um sonho, o prólogo de uma história que ainda se escreve.
Muitos que estiveram no nosso vernissage, no nosso evento de lançamento, disseram que gostaram. A grande maioria teceu elogios às imagens e aos sentimentos que elas evocaram. Disseram que nós, a Souedo, conseguimos captar a realidade manauara e fazê-los lembrar de quem realmente somos. Nem que tenha sido por uma única noite, dentro de uma galeria de arte, o véu que nos cegava de nossa própria cultura foi retirado, e pudemos refletir sobre o quão privilegiados somos por termos nascido nesta região.
Contudo, mesmo felizes por ver esses quadros de volta, uma dúvida paira sobre nós: eles ainda seriam capazes de nos impactar?
Por mais que nos doa admitir, não nos espantaria ouvir um “não”. Pelo menos não seríamos os primeiros a experimentar isso. Vivemos numa sociedade que clama pelo novo. Estamos presos em um barco que navega eternamente em busca do farol da novidade. E, ironicamente, nunca conseguimos alcançá-lo, porque a busca se torna obsoleta assim que o farol deixa de apresentar algo novo.
Não viu hoje? Não tem problema. Amanhã verá algo.
(Créditos: obra icônica de Andy Warhol chamada "Marilyn Diptych", criada em 1962.) |
Andy Warhol foi perspicaz ao perceber essa mudança de costume no século passado e trabalhá-la em suas obras. Ele afirmava que, ao repetir uma imagem, ela se esvaziava. Deixava de ser especial e tornava-se impessoal. Virava um criptídeos: desumanizava-se, perdia seus signos e seus significados.
E esse fenômeno não se restringe apenas às obras de arte, sejam pinturas ou fotografias. Ele define a nossa sociedade.
As redes sociais, que antes pareciam janelas para o mundo, tornaram-se um grande rolo compressor de imagens e informações. Somos impactados o tempo inteiro, sem tempo para digerir, sem espaço para absorver. O que hoje gera comoção, amanhã será apenas mais um fragmento de um feed em constante atualização.
Pessoas, celebridades, notícias, desastres, tecnologias e até mesmo coleções de moda: tudo entra e sai do ciclo de relevância com uma velocidade esmagadora. Quando a dopamina deixa nosso corpo, todas essas coisas perdem importância.
Queremos, novamente, o novo.
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Essa dinâmica faz parte do modelo capitalista em que vivemos. No livro O Capitalismo Estético, Gilles Lipovetsky argumenta que o capitalismo se apropriou da estética para produzir valor simbólico, tornando tudo uma mercadoria visual. Ele explica que, no capitalismo contemporâneo, a estética não é mais apenas um campo autônomo da arte, mas uma estratégia central da economia. Produtos, marcas e até identidades são construídos através da imagem e do design, criando um mercado onde o visual e o simbólico importam mais do que a funcionalidade, a necessidade ou a perenidade.
Um objeto, outrora rico, ao ser transformado em produto de consumo, tem sua imagem desgastada. A experiência visual é vendida incessantemente, e o excesso de imagens cria uma cultura da superficialidade e do efêmero.
A Souedo sempre entendeu essa lógica. Sabemos que os ciclos são inevitáveis, que o efêmero é inerente ao mundo da moda e da arte. Mas a pergunta que nos move é: é possível escapar disso? Afinal, tudo é repetição.
Inúmeras histórias já foram contadas, mas poucas conseguem criar uma conexão capaz de superar a efemeridade das coisas e transformar um produto com “prazo de validade” em algo atemporal. Essa é a magia de contar histórias. O cerne da nossa marca. O encanto das antologias vestíveis.
Na moda, é difícil alcançar isso. Um dos exemplos mais marcantes da última década que vem à mente é a coleção da Miu Miu de 2022.
Naquela época, o mundo clamava por novidade e escapismo após a pandemia de Covid-19. Aquele desfile da Miu Miu seria um dos primeiros grandes eventos de moda desde o início do “novo normal”.
Entre os inúmeros looks apresentados, todos os olhos se voltaram para um em específico. Um capaz de fazer o coração de qualquer fashionista palpitar de emoção:
Um suéter cropped de lã cinza, com mangas longas cobrindo parte das mãos, revelando quase todo o torso nu. Por baixo dele, uma camisa azul apenas insinuada. Mas a parte mais icônica estava abaixo: uma saia ultracurta pregueada, que mesclava a estética colegial com uma alfaiataria desconstruída.
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Logo, não demorou para que víssemos aquele conjunto em todos os lugares.
Literalmente, em todos os lugares.
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Foi uma febre. É até mesmo difícil mensurar quantas pessoas usaram, quantas campanhas foram feitas e quantas vezes ele foi copiado. Mas tão rápido quanto veio, tão rápido foi embora. Tornou-se mais um look datado, uma peça da coleção passada.
Nada novo sob o Sol. A lógica desse mercado se baseia na constante renovação e na distinção. Desde o seu nascimento, uma coleção está fadada a morrer com a chegada da próxima.
E assim seguimos: repetindo, esvaziando, buscando o próximo desejo antes mesmo de o anterior se desgastar completamente.
Mas, e se a imagem repetida não se esvaziasse? Se, em vez de se tornar um produto morto, ela voltasse como um mito, um ciclo que se refaz?
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Um dos quadros que expusemos, Navegantes, está agora se transformando em uma estampa. Está se transformando para continuar capaz de gerar impacto. O barco que flutuava imóvel na fotografia deslizará sobre a trama do tecido. Ele já não está mais fixo na parede de uma galeria, mas atravessa corpos, veste histórias, carrega consigo memórias e moldará a narrativa daqueles que vestirem nossa marca.
Vestimos a travessia. A história do barco se funde à nossa. Atravessamos correntes invisíveis, levamos conosco os ciclos das marés e os mitos que ressurgem.
E sob esse barco estampado na trama e no urdume, vemos que o rio guarda, sim, memórias, mistérios e forças invisíveis que nos guiam pelas incertezas. As marcas do passado, do que já foi visto e vivido, permanecem. De alguma forma, são incapazes de ser descartadas. Uma imagem pode perder seu impacto, mas um mito nunca se desgasta completamente.
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O que a Souedo busca não é apenas capturar imagens. Não é apenas vender roupas. É contar histórias. Fazer com que elas resistam ao tempo. Talvez essa seja a diferença entre criar e apenas produzir. Afinal, “roupa bonita” existe em todos os lugares. É fácil seguir o fluxo, difícil é encontrar um significado que permaneça.
No fim, não se trata só de criar, mas de escolher qual rio percorrer e se vale a pena voltar para recontar uma história, da mesma forma que fazemos ao retornar com essa exposição.
Lembramo-nos de que, no primeiro vernissage, fizemos um discurso sobre os quadros e perguntamos aos espectadores, assim como para nós mesmos, o que poderíamos fazer para manter aquelas imagens atuais. O que deveríamos fazer para que o discurso continuasse relevante, para que as imagens captadas não se tornassem apenas impressões em um filme fotográfico?
Agora, voltamos a perguntar a vocês, espectadores e criadores: o que realmente merece ser lembrado?