Ser um criador, independentemente da área (estilista, fotógrafo ou ator), é habitar um espaço de permanente negociação com o tempo.

Principalmente com o tempo dos outros.

E, dentro desse fluxo, às vezes tudo sai do controle. Aconteceu comigo, aconteceu com a Souedo.
Perdemos nosso prazo. Nossas peças ainda não ficaram prontas, moldes não foram entregues em tempo hábil, faltou material e, de repente, o lançamento da coleção atrasou.

E, com o atraso, veio o medo de que nossas ideias percam o frescor. De que o tempo as torne obsoletas e de que cada segundo perdido signifique um investimento dobrado. E a frustração cresce na mesma medida em que cresce o temor de entrar no mercado.

Com isso em mente, não pude evitar pensar em Louise Bourgeois e em seus rabiscos de espirais para se acalmar, para encontrar um sentido no caos que a cercava.

 

Créditos: Louise Bourgeois por Annie Leibovit, 1997

Conversando com uma amiga próxima, que a estudou profundamente no seu trabalho de conclusão de faculdade, ela me disse que suas espirais eram uma tentativa de ordenar aquilo que escapava ao seu controle, que ela as fazia de dentro para fora, de fora para dentro, desenhando um movimento contínuo de fuga e retorno. No momento, a Souedo as desenha involuntariamente enquanto espera pelos tecidos, pela costura e pelas peças que ainda não vieram.

Créditos da esquerda para direita: Catálogo da exposição de 2018 na Cheim & Read; Obra sem tititulo de Louise Bourgeois (Orbits and Gravity), 2008.

Criar é isso: uma aspiração de caos. Tentamos aprisioná-lo na forma de uma peça, de uma cena ou de uma fotografia, mas ele sempre escapa, sempre contamina outros processos aquém do artista.

Na modernidade, o artista aprendeu a aceitar a condição prostituída de sua prática. Não porque se vende, mas porque, em última instância, sempre depende de uma engrenagem externa que determina os ritmos e as formas do seu fazer. O mercado da moda exige novidade, mas os ciclos criativos não seguem o calendário do consumo.

Criadores também vivem nesse limiar. A moda exige novidade, mas o processo criativo nem sempre segue os prazos do mercado, da mesma forma que nossos parceiros não respeitam os nossos próprios prazos.

 A criação se move em um ritmo próprio. No teatro, a lógica não é diferente. A interpretação depende do outro, da química da cena e, novamente, do tempo do outro.

Não há controle absoluto quando a arte envolve tantos corpos e tantos tempos diferentes.

 A ilusão da autonomia se desfaz na materialidade dos processos.

Criar é um equilíbrio entre o controle e a liberdade. E as vezes, semelhante ao trabalho de um toureiro:  há o desejo de guiar, de controlar a força bruta do que foi concebido, mas sempre existe o risco de ser engolido pelo próprio movimento, do touro, do mercado ou dos outros. O criador avança, recua, conduz a arte, mas nunca a domina por completo. Há momentos em que tudo parece se encaixar, mas imprevistos acontecem, assim como na vida.

 

Créditos: Jean Cocteau – Le Toréador couronné, 1961
Litografia sobre papel. Edição: Litografia para o portfólio Gitans et Corridas, editado pela Société de Diffusion Artistique, 28 x 38 cm.

E, como é mais do que sabido, a arte imita a vida.

Nosso ofício oscila entre o que revelamos e o que ocultamos, entre aquilo que moldamos e aquilo que, por mais que tentemos, nos escapa. A criação nunca é uma linha reta; é uma espiral, um rabisco tentando se organizar.

E, enquanto esperamos pela nossa entrada no mercado, nos perguntamos se essa espera é um atraso ou apenas o tempo necessário para que a espiral se complete. Para que o caos que Bourgeois percebeu possa se dissipar e aquela forma espiralada possa, enfim, se transformar em algo.