
O Inconsciente Coletivo das Águas: Uma Reflexão sobre Mitos, Estampa e Conexões.
Não é só a Souedo que se interessa por histórias e pela ciclicidade inerente a elas, que as fazem reaparecer, de tempos em tempos, em diferentes partes do mundo. Nossa proposta sempre esteve ligada a esse movimento de contar e recontar narrativas, traduzindo símbolos e mitos em formas vestíveis.
Os mitos não surgem isoladamente - são ecos de algo essencial, ressurgindo sob novas roupagens porque carregam verdades profundas sobre a experiência humana. E, ao trazer Iemanjá como parte do tema que estamos contando, nos deparamos com inúmeras similaridades entre seu mito e outras representações de deidades marinhas, que são sobretudo femininas.
Estudando o tema, percebemos que, em todas as culturas, o mar emerge como uma força avassaladora e misteriosa, fonte de vida, destruição e transformação. Um espelho do inconsciente humano: vasto, profundo e imprevisível. Não à toa, ele ocupa um lugar central nas origens das civilizações, como o Nilo para o antigo Egito, o Rio Amazonas para os povos originários e o Tigre e o Eufrates para os antigos mesopotâmios.
O mar e as águas, como um todo, são peças fundamentais em diversos mitos e narrativas, refletindo, de certa forma, o que Carl Jung chamou de “inconsciente coletivo”. Figuras como Iemanjá, Nossa Senhora dos Navegantes, sereias e os deuses gregos dos mares são expressões de um mesmo núcleo arquetípico — um repertório compartilhado de símbolos e histórias que atravessam o tempo e o espaço.
Nossa Senhora dos Navegantes, sob o título de Stella Maris (Estrela do Mar), guiava marinheiros e viajantes, oferecendo segurança em meio às incertezas das águas. Assim como Maria era invocada em preces para evitar naufrágios, Iemanjá era reverenciada por pescadores e comunidades afro-brasileiras para acalmar as ondas e garantir a abundância da pesca. Na mitologia grega, o mar também assume esse papel protetor na história de Europa, conduzindo-a a um novo destino após ser raptada por Zeus. Todas essas figuras personificam o arquétipo da “mãe protetora”, cuja presença é invocada em momentos de perigo.
Mas essas figuras também carregam a ambiguidade do mar. Assim como o oceano pode ser calmo ou tempestuoso, essas deidades, assim como as sereias, refletem essa dualidade. Em algumas tradições, as sereias eram vistas como guardiãs dos barcos, esculpidas em estátuas de proa para proteger os navegantes. Como Stella Maris e a orixá, elas guiam os viajantes ao seu destino, oferecendo um senso de segurança em meio ao desconhecido. Ao mesmo tempo, sempre carregaram o perigo em seus cantos. Na Odisseia, de Homero, seduzem os marinheiros com suas vozes irresistíveis, atraindo-os para a destruição.
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Nós navegamos por uma realidade em constante transformação. O tempo, assim como as águas, flui sem controle, redesenhando as margens e traçando novas rotas. E tudo isso acontece debaixo do barco de nossa estampa. Navegantes traduz essa travessia: a solidão de uma embarcação que corta o rio, deslocando-se entre memórias e descobertas, entre o conhecido e o incerto. Confecção da estampa Navegante; 2025. Acervo Souedo. |
Vestimos a travessia. A história do barco se funde à nossa, atravessamos correntes invisíveis, levamos conosco os ciclos das marés e os mitos que ressurgem. Navegantes é mais do que uma estampa: é o movimento contínuo das águas em que nos encontramos e nos transformamos. E sob esse barco estampado na trama e no urdume, vemos que o rio guarda sim memórias, mistérios e a forças dessas figuras “maternas” invisíveis que nos guiam pelas incertezas.