Dois de fevereiro.
Uma pequena data no calendário, mas com um significado e importância que transcendem os limites do tempo, repercutindo o ano todo no imaginário brasileiro por ser a data de uma entidade cultuada por todos aqui abaixo da linha do equador: Iemanjá.

Iemanjá é um orixá, uma divindade africana que divide o panteão com outras deidades, tanto na África quanto no Brasil. Por aqui, a devoção à Deusa do Mar extrapola os limites das religiões de matrizes africanas, sendo abraçada por diferentes credos, inspirando músicas, histórias e costumes ao longo de muitos anos.

Para o sociólogo Rodney William Eugênio, “todos somos filhos de Iemanjá, ela é a grande mãe do mundo”. Não à toa, sua liturgia acontece em dois de fevereiro, pois essa mesma data, para os católicos, representa o dia de Nossa Senhora dos Navegantes.

Nesse dia, diversas são as homenagens prestadas a Iemanjá, variando desde oferendas de flores brancas ao mar até pequenos barcos adornados com espelhos, flores, estatuetas do orixá, joias e perfumes de alfazema, como forma de agradecimento ou para pedir algo. Além disso, o costume brasileiro de vestir branco na virada do ano também encontra suas raízes nesse culto.

 

 

 

Editorial feito pela Souedo em homenagem a Iemanjá 2025. Foto por Demi Brasil; acervo Souedo.

Contudo, por mais belo que o sincretismo religioso possa parecer, principalmente no país autodeclarado “paraíso das três raças”, a figura e o culto a Iemanjá chegaram a terras brasileiras devido ao passado escravocrata, em que inúmeros povos foram retirados à força de seus lares para uma vida de extrema violência e trabalho forçado.

Seu culto, assim como o de outros orixás, só sobreviveu em terras tupiniquins graças à aglutinação dessas diferentes culturas africanas e à associação de sua imagem ao panteão católico já presente no Brasil.

Também por isso, sua representação foi alterada. No que tange à arte figurativa de Iemanjá, a deusa é majoritariamente representada como uma mulher branca, um híbrido entre uma santa católica e uma sereia, como aquelas que nos foram apresentadas em contos de fadas oriundos da cultura europeia.

 

 

 

 

Editorial feito pela Souedo em homenagem a Iemanjá 2025. Foto por Demi Brasil; acervo Souedo.

Porém, é importante salientar que nossas sereias não são brancas e tampouco são princesas de desenhos animados à espera de um príncipe encantado. Mas também, como seria? Iemanjá é africana. É uma mulher negra como tantas outras que residem aqui e no seu continente de origem, cujas histórias comumente são obliteradas ou alteradas com o intuito de não as reconhecer como pilares importantíssimos na história da formação dessa nação.

Iemanjá, em sua profundidade e multiplicidade, carrega os reflexos de quem somos e do que esquecemos de lembrar. Sua figura como “sereia” transcende o imaginário romântico ou ocidentalizado. Ela é um personagem que, como os criptídeos, desafia definições. E mais do que uma deusa ou uma figura mitológica, ela é um espelho, um espelho d’agua: de nossas origens, de nossas lutas, das nossas transformações e daquilo que ainda podemos descobrir ao mergulhar a fundo em quem somos.